Ler é uma capacidade fundamental e a sua aquisição começa muitos anos antes da primeira palavra lida. 

A primeira aquisição que a criança faz ao nível da leitura é na perceção que os livros têm histórias e que as histórias estão escritas com símbolos, de várias formas e de vários tamanhos que dizem alguma coisa. Ou será que até começa bem antes disso, quando a criança começa a inventar as suas próprias histórias, lendo e interpretando as imagens que aparecem num livro? 

Para ler é preciso aprender as palavras. Sim, mas é muito mais do que juntar várias figurinhas estranhas, que conforme as dispomos em posições diferentes, fazem sons diferentes e querem dizer coisas diferentes. Ler precisa de entoação, precisa de compreensão e por isso faz parte da aprendizagem da leitura, ouvir ler, ouvir entoar, brincar com os sons e com as palavras que se lêem.

Antes de ler, muito antes, é preciso brincar com os sons, brincar com as palavras, treinar aquele que é o aparelho fonador, que nos permite falar, treinar a respiração, a pausa, o ritmo... para depois brincar com as palavras, com as sílabas, com as letras. Desenhar muito, muito, muito, com as mãos, com os dedos, com pincéis, com lápis, giz, canetas... adquirir a noção de corpo, espaço e movimento, centralidade e lateralidade, de cima e baixo, dentro e fora! E por tudo isto, a aquisição da capacidade de ler não começa no 1º ano! 

Ler é um processo muito difícil. Bem, para mim parece que foi algo natural, não me lembro de quando não sabia ler. Como foi comigo aprender, não me recordo. Mas passei pelos mesmos processos pelos quais passam todas as crianças. O primeiro passo acho que foi a necessidade. Havia livros em casa e eu queria pegar e ler sozinha sem ninguém a interferir. Eram a minha companhia.

Mas a leitura pode não acontecer de forma tão natural. Pode ser um processo muito difícil para a criança. Muitas vezes, quando os pais se apercebem destas dificuldades, tendem a mostrar ansiedade e acabam por transmiti-la para a criança. E às vezes, é preciso alterar as estratégias a usar, descomplicar e simplificar adequando novas formas de abordar a leitura. Não se pode pedir a uma criança que não tem noções básicas sobre o seu esquema corporal e sobre a lateralidade, ou que nunca desfolhou um livro inventando as suas próprias histórias, ou a quem nunca contaram histórias, muitas histórias, nem leram livros, tantos e tão diferentes, que um dia se sente numa secretária e de forma natural aprenda a ler.

Ler não pode ser visto como uma capacidade inata, tem de ser aprendida e trabalhada. Quando a criança se desmotiva, a aprendizagem fica desde logo muito condicionada e quando tornamos esta aprendizagem em algo negativo que pode transtornar a criança, trazendo-lhe momentos negativos, momentos de ansiedade e medo, o processo fica logo muito limitado e um livro começa a ser um papão em vez de ser um prazer.

Não conseguir ler não é hoje motivo de retenção no primeiro ano como era há muitos anos atrás. Mas pelo terceiro ano, já quase que não é comportável que a criança não leia. O que está errado aqui, é não se aceitar que as dificuldades de aprendizagem são uma condição como outra qualquer. Existem muitas causas para a limitação da aquisição das competências essenciais à leitura e antes de se atribuir um rótulo à criança, temos de estar abertos à exploração de todas as questões que possam estar a condicionar esta aprendizagem.

Ler é fantástico, para mim, mas pode não o ser para o outro. E às vezes, não entendemos isso. Andar e correr é fantástico. Uma criança com apraxia motora pode não o fazer e não há problema com isso, porque compreendemos que é a função muscular que está afetada. Então, porque é que não compreendemos quando é o músculo da leitura o que está afetado?