Palavra de poeta (Portugal) pertence a uma das categorias mais inúteis de lançamentos editoriais: os livros de entrevistas com escritores. Mesmo exceções significativas como De olhos abertos, as longas conversas que Mathieu Galey manteve com Marguerite Yourcenar, transformaram-se em desilusão. Sabemos hoje da intenção puramente mercenária e oportunista do livro e que Galey detestava e zombava da autora de Memórias de Adriano. Pior ainda, o resto da vida da grande entrevistada revelou-se uma cruel contrafação do que ali era dito.
Segundo a Civilização Brasileira, Denira Rozário “não apenas faz perguntas, mas tem empatia profunda com os poetas”. Lorota. Não se percebe tal empatia nas perguntas triviais e absolutamente externas às obras que conduzem as vinte e quatro enfadonhas entrevistas: “Como é o seu dia a dia?”; “O poeta precisa ser intelectual?”; “Considera-se feliz no amor?”; “ Por que começou a escrever poesia?”; “O que você está lendo?”; “Descreva a sua casa”, e a suprema tolice: “Fale alguma coisa sobre as palavras silêncio, solidão, poder, sucesso, liberdade, morte, prazer, medo, loucura, traição, eternidade e poesia”!!!!!!!!!!!!!!!????????????
“Memórias somos”, o verso de Casimiro de Brito ajuda a iluminar a colaboração dos entrevistados na pesada banalidade do livro. Surpreendemos poetas velhos, cansados da vida e que parecem, como se diz, que morreram e esqueceram de enterrar. Ou poetas blasés que ficam o tempo todo jogando areia nas perguntas (mas também…).
Há entrevistas com um quê de ridículo, como a de Natália Correia, uma Madame Mim da Nova Era, a julgar pelas fotos que compõem a aterrorizante galeria do volume (será que nenhum deles tinha um retratinho melhor?) e pelas suas impagáveis afirmações: “O poeta tem que se banhar na lunaridade da festa noturna” ou “não permito que nada me separe da escrita, porque o corpo e a palavra estão unidos” (ela escreve à mão, informação absolutamente essencial à nossa vida).
Alguns entrevistados são simpáticos (Ana Hetherly, David Mourão-Ferreira, Nuno Júdice), mas as quase quatrocentas páginas só valem pela breve antologia. Bem poderia ser mais extensa, uma vez que poucos nomes são conhecidos pelo público brasileiro, caso de Mourão-Ferreira, de Sophia de Melo Brayner Andersen e do grande Eugênio de Andrade.
É bom ressaltar esse fato porque em meio a declarações apocalípticas (“O homem das cavernas trabalha agora com computador”; “A terra está a ficar inabitável”), vários deles registram sua dívida para com Carlos Drummond de Andrade. Além dele e do nosso maior poeta vivo, João Cabral de Melo Neto, os mais citados são sempre Manuel Bandeira, Murilo Mendes (redescoberto agora no Brasil) e Cecília Meireles.
Da bacalhoada toda ficam alguns poemas, a razão de interessarmo-nos por esses cavalheiros e damas mais ou menos simpáticos: “Ergue-se aérea pedra a pedra/ a casa que só tenho no poema // A casa dorme, sonha no vento / a delícia súbita de ser mastro// Como estremece um torso delicado/assim a casa, assim o barco// Uma gaivota passa e outra e outra/ a casa não resiste: também voa// Ah, um dia a casa será bosque/ à sua sombra encontrarei a fonte/ onde um rumor de água é só silêncio” (Eugênio de Andrade).
(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 10 de maio de 1994)
nota de 2012- Hoje eu não seria tão taxativo a respeito dos livros de entrevistas, mas ainda tenho um pé atrás.


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