Finais de tarde, nesses nossos trópicos de cá, sempre surpreendem pela variação de luzes; ao menos foi assim antes dessa avassaladora invasão dos painéis luminosos. Estão em toda parte. Os negócios ganham; com prejuízo estético: mal dá para ver a gradação natural das cores. Mas esse risco agora se estende, na cultura corrida desses dias. Perda do senso das nuances. Já na vida externa, os painéis elétricos nem mais deixam ver a rica gradação de luzes do crepúsculo; a música dos shoppings vai impelindo à individualidade dos aparelhos auriculares. Na vida do espírito, perde-se sobretudo a capacidade de percepção de certa sintaxe um pouco mais sutil — a atenção aos detalhes; talvez aquilo a que Clarice chamou de o delicado essencial.
Na verdade, perdemos, pouco a pouco, a paisagem no que ela é etimologicamente, um conjunto de ordem, harmonia, beleza. Um rosto, a ser considerado com cuidado, é uma paisagem — que frequentemente nossa desatenção negligencia. E, no entanto, os traços trazem, e traduzem toda uma paisagem interior. Com os retratistas holandeses do 17, especialmente, ainda temos essa paisagem interior adensada, quando parece apenas sugerida; às vezes, num traço, num detalhe — que é justamente o que torna um rosto tão caro. O poeta sabe: Por toda la hermosura/ nunca yo me perderé /sino por un no sé qué/ que se alcanza por ventura. Um detalhe, um traço — e o rosto amado se singulariza.
No ritmo frenético desse nosso tempo, nessa turbulência continuada, facilmente o singular escapa. E deixamos de ver muita coisa importante, preciosa. Porque, muitas vezes, é no comum que o singular se dissimula. O que a gente tende a ver como poético, já é a destreza da atenção centrada em algo que compõe o real, o concreto do real — aquilo que, estando ali, espanta: (…) Pena de pavão de Krishna / Maravilha, vixe, Maria mãe de Deus / Será que esses olhos são meus?, diz Caetano.
Na linguagem corrente, sobretudo nas redes sociais, há essa tendência a reduzir para melhor transmitir. A mídia trabalha dentro de uma medida mediana (a nuance, a proximidade semântica aqui não é gratuita); busca um denominador mental comum. Basta ver como o esforço de certo lirismo inteligente fica desperdiçado, na canção popular; uma metáfora parece agora pedir um esforço fora do comum; a sutileza perdeu-se; fica apenas o explícito; a volúpia do dizer bem, parece fora de propósito; assim, quando o poeta diz, com muita precisão, que a saudade é o revés de um parto. No denominador mental comum, corrente nas redes, não há tempo — nem propósito — para reler, ouvir de novo, degustar a expressão rara, feliz. Raro quem, feito Fernando Pessoa, se comove se dizem bem. As pessoas esperam a mensagem já “debulhada”, explicita; que se lhes poupe o trabalho interpretativo. Vale a emoção em seu estágio mais imediato. O espaço de circulação de sentidos, os links possíveis em aventuras e surpresas de conivência entre o poeta e o leitor ou ouvinte, isso perde-se. Preso na parede/ esse meu coração/ teu. Ora, na cultura popular do Nordeste era comum aquela representação do Coração de Jesus nas salas; fica essa memória flutuando no contexto cultural; o poeta aqui lança um link improvável promovendo a sagrado seu amor; e arremata fundindo espaço na equiparação proposital dos possessivos; meu/ teu.
Aqui já se trata de um outro nível de emoção — já não epidérmica, mas funda. Instala uma interação entre o poeta (o que elaborou o texto) e o poeta (ou seja, o poeta possível que esses versos acordam).
Daí a necessidade de estar atento à sintaxe singular, às nuances que enriquecem a vida. Desatenção à linguagem é, portanto, desatenção à vida. Quando a linguagem passa, explícita, ela como que desliza sobre o ouvinte — sem atingi-lo diretamente além dos nervos, na cadência da canção; quando atento à construção do texto, o ouvinte (ou aqui, leitor), se vê impactado nos neurônios; já é uma atividade de outra ordem de coisa; já é uma reciprocidade. A poética age sobre o ouvinte; a sintaxe se singulariza — e permite essa rica permuta de signos.
É que a atenção à sintaxe, à percepção das nuances, das singularidades, tudo isso tem implicação emocional imediata. Essa atenção desdobra possibilidades; faz ver mais; e, sobretudo, permite ver diferente; enfim, já bastaria para justificar a literatura.
A expressão feliz, o verso bem-sucedido — digamos: o que surpreende e apraz, o que te dá, com a surpresa, satisfação — abre a possibilidade de tocar o outro, de transcender o particular. Como quando uma negra, que a gente supõe magnífica, arrebata o pobre do Camões, ele só pode dizer: essa cativa que me tem cativo. Ele parte de uma experiência talvez só sua; mas, o trato dado à linguagem, o modo de expressar, permite a qualquer leitor na mesma situação, sentir — se traduzido.
E o homem se alarga quando diz melhor; porque há, no fenômeno da expressão, o espaço privilegiado de uma emergência do sujeito; é isso o que a literatura celebra.
Assim, é de se lamentar se a gente for perdendo, aos poucos, a capacidade de perceber as nuances, as singularidades, os entretons, a gama variadíssima que enriquece a vida. Precisamos, sim, é de uma reeducação da sensibilidade; na literatura a vida se apresenta enquanto interconexão aberta, sempre possível, como um vasto sistema de comunicações transversais. E onde, justamente, por desatenção, podemos perder detalhes preciosos; a sintaxe da vida é complexa, frágil, fractal, caótica; a ética da atenção é, portanto, fundamental. Será privilégio do outono essa atenção às nuances?
No começo da noite os letreiros luminosos gritam agressivos. Do lado de Olinda, o pôr do sol vai compondo uma gradação de luz difusa contra um fundo de azul tranquilo — um meio tom intenso que dá sentido ao mundo.
