Por José Eduardo Ribeiro Nascimento
O corpo havia desaparecido.
Romualdo não conseguiu pregar os olhos. Sua mente perambulava em pensamentos estranhos, hora por conta da mulher e sua cesariana macabra, ora pela saraivada de comentários infelizes e gargalhadas de que foi alvo algumas horas antes. Sem conseguir se conter, acordou e pulou da cama com tanta violência que acordou seu irmão, Joaquim. Gastou algum tempo convencendo o irmão a acompanhá-lo, e rumaram pra encruzilhada.
Felizmente havia sangue suficiente para convencer Joaquim de que algo grave havia acontecido ali. Pedaços de vidro decoravam o capim pisado, a luz da lua no sangue negro dava uma sensação fria e paranoica ao ar. A estrada escura seguia pelos quatro lados, e, lá na frente, as copas das grandes jaqueiras balançavam furiosamente, embora o vento estivesse parado.
Não voltou a ver aquela mulher, ou o macumbeiro.
*************
Romualdo acordou cedo, como de costume, e saiu com sua espingarda de chumbo, calibre trinta e seis, em uma mão, alforje nas costas, e uma panela na outra; a vaca e seu bezerro, preso no dia anterior, esperavam ansiosos por ele. Sentou num toco de jaqueira, que lhe servia muito bem como banco todas as manhãs, e começou a tirar o leite. A vaca já estava acostumada a essa rotina, e se concentrava em desempenhar bem sua função.
Os primeiros raios matutinos apareciam na madrugada fria. Romualdo pensava em seu dia de trabalho: cercas para acertar, roça para capinar, “a fonte esta cheia de lama” – pensou. Seu pensamento pulou para seu casamento que viria dali a duas semanas. Sua noiva era professora em uma escola no município vizinho, e lutava para que fundassem uma nova escola na cidade. Era uma mulher culta, e havia se formado na capital. O pai de Romualdo, para sua felicidade, lhe havia ajudado a construir sua casa nos terrenos da família, e Romualdo agora lembrava que deveria reservar um tempo para arrumar algumas coisas em seu futuro lar. Havia muita coisa, e pouco tempo. “Vou lá, à noite, e acerto as coisas à luz do lampião. A cerca é que não dá para fazer de noite”.
O dia passou como de costume. Romualdo era um desses seres humanos raros que se divertia com o trabalho duro. Ruminar seus pensamentos e planos, ouvindo apenas as estocadas de sua enxada, ouvindo o bezerro passear pelo capim e os pássaros aproveitarem a espingarda recostada na jaqueira. Costumava fazer esses trabalhos de manutenção sozinho; Joaquim, seu irmão, fora para o sul do país no pau de arara tentar a vida longe dos pais, sua irmã se casara e seu outro irmão, mais velho ____, já havia tomado, também, outros rumos para sua vida. Seu pai costumava produzir e vender tabaco nas feiras, trabalho que lhe tomava grande parte do tempo. “Tanto melhor – pensava Romualdo – qualquer um deles só me atrapalharia, minha vida vai bem. Família só presta longe.” Embalado por esses pensamentos, o dia de trabalho ia chegando ao fim. Reservou meia hora para matar algumas rolinhas que se arriscaram na fonte, e tomou o rumo de casa, comentou seu progresso no trabalho com o pai, pegou farinha, feijão, arroz e dois lampiões e rumou pra sua futura residência.
Chegou lá decidido a acertar o piso no quarto que faltava. A casa fora antes um depósito, e, adaptada com algumas paredes propiciava uma casa aconchegante, para os padrões vermelhenses. Trabalhou algum tempo, o suficiente apenas para a noite se apoderar da casa, e a fome bater em seu estômago. Caminhou até o cômodo onde deveria ficar a cozinha, acendeu o fogão à lenha e começou a tostar as pequenas rolinhas; requentou o feijão e o arroz, e se pôs a comer sua refeição, com tal gosto que se pensaria estar comendo um manjar divino.
Voltou seus pensamentos ao seu casamento. O padre Luís exigia o mínimo de arrumação na Igreja, flores e coisas assim. O simples mencionar desse fato lhe tirava a paciência. Seria preferível pagar o dobro do preço. Haveria um churrasco, onde mataria um carneiro gordo, presente de sua mãe. Pensava em tudo aquilo, e em seu filho que viria dali a algum tempo; deveria ensiná-lo o trabalho de cedo, e… – seu pensamento mudou de rumo quando ouviu uma porta bater. Foi uma pancada surda, seguida de um risinho infantil. “-Molecagem… – pensou – não podem ver nada quieto, e já vão mexendo. De certo que pensaram que não havia ninguém em casa”.
Jogou sua bacia de comida de lado, apoiou-se na espingarda recostada na parede, e já estava pra se levantar, quando um pensamento lhe paralisou a animação: não havia portas na casa. A porta que dava pra estrada estava sustentada no lugar por escoras e pregos. A porta dos fundos, última alternativa, não era senão aquela sobre a qual descansava suas costas enquanto comia. Um medo terrível lhe fez bater os queixos, o riso infantil se transformara em gargalhada, depois choro. Um choro agudo, choro de um bebê.