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«Eu quis sonhar mais alto»

A música portuguesa apresenta-se com uma saúde de ferro. Tenho lido alguns comentários nesse sentido, exaltando a sua atual qualidade. E eu contraponho, porque sempre esteve numa forma invejável. A diferença é que, finalmente, há uma aposta mais digna nos artistas nacionais, valorizando os estilos, a identidade e a multiplicidade. E existe uma curiosidade maior por aquilo que é produzido - e cantado - pelos nossos. Como eterna apaixonada pelo nosso dialeto, existem nomes que acompanho desde sempre. E há outros que tenho abraçado pelo caminho.

Slow J. pertence ao segundo grupo. E é absolutamente inspiradora a sua entrega à música. Sem qualquer tipo de promoção, no passado dia 20 de setembro, surpreendeu o público ao disponibilizar o seu mais recente álbum nas plataformas digitais. You Are Forgiven conta com participações especiais e com uma mensagem poderosa. E, ao analisar todo o retorno que o tem envolvido, compreendo que a perceção é bastante unânime, tendo em conta que nos deixou completamente siderados e conquistados. Assim que escutei, pela primeira vez, as nove faixas, houve um pensamento que se fez sobressair no meu peito: será, muito provavelmente, um dos discos do ano. E com todo o mérito.

Acredito que não esteja a cometar uma falha ao mencionar que foi Pedro Teixeira da Mota a realçar uma questão de máxima importância: publicitar o nosso trabalho pode ser útil - e funciona -, mas, neste caso, foi a obra que prevaleceu. Não existiu um aviso prévio, no entanto, a novidade espalhou-se. Se o produto não tivesse valor, passaria despercebido. Porém, atendendo à qualidade do rapper, cantor e produtor, o passa a palavra assumiu proporções consideráveis. É esta confiança, que ele conquistou de pulso, que demonstra a verdade da sua arte. Os seus valores. E o lugar que pretende alcançar. Após algum tempo de afastamento da ribalta, quebrou o silêncio. E abriu a porta que nos fez perceber o motivo que o manteve nos bastidores.

O caminho é em frente, mas há alturas em que necessitamos de recuar, para entendermos as nossas competências, para percebermos aquilo que somos capazes de abraçar. Portanto, You Are Forgiven marca uma viagem introspetiva e de auto-descoberta. Tem uma história intensa, profunda e, inclusive, catártica, onde se canta o sonho, o perdão e o labirinto que é a nossa vinda, sendo imprescindível reconhecermos a nossa identidade. Há, ainda, um regresso às origens, muita saudade, inquietação, dor, amor e a certeza de que a ausência de som também comunica. Aquilo que somos, para onde pretendemos ir e a imagem que desconstruímos são linhas da mesma rota, que nos surgem condensadas nestas melodias e letras habilidosas - e que transbordam magia.

Slow J. convidou-nos a embarcar na sua jornada mais íntima, na qual procura ser feliz e não se desviar da sua essência. Por isso, nesta narrativa discográfica - e poética -, alternamos entre a culpa e o perdão. Entre o ruído e o silêncio. Entre a fama, a aceitação e as suas raízes. Inspirado nas suas experiências, a carga emocional negativa sofre uma metamorfose. E o artista renasce, chegando ao topo.