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Já sabia que este livro ia ser duro e triste. Também já sabia que o queria ler (não sabia era quando) por isso estava ali no kobo à espera da altura certa. Li-o num instante (calma, estava de férias, lia durante horas e horas) e não me arrependi. Não estava à espera que me fizesse lembrar um outro livro maravilhoso e triste, o As cinzas de Angela, de Frank McCourt que já li há muitos anos e que me marcou bastante. 

Este livro é sobre um menino que tem que crescer mais depressa do que devia. É sobre uma mulher sem auto-estima e com uma doença. É sobre amor, pertença, dedicação. É sobre escolhas, sobre bullying, sobre como as nossas circunstâncias nos moldam e condicionam (felizmente é pouco sobre como as nossas circunstâncias não nos definem, tenho pouca paciência para esse tipo de conversa porque acho que as nossas circunstâncias são precisamente aquilo que nos define, às vezes conseguimos vencer apesar delas, outras vezes por causa delas mas são sempre, sempre importantes), como a vida não é justa para todos, como ainda tempos tanto, tanto para aprender. 

O abandono a que este menino é votado por todos é cruel. Quase me dá vontade de dizer que é impossível alguém sobreviver àquilo com alguma sanidade mental mas a vida já me ensinou que a verdade está, tantas vezes, naquilo que consideramos impossível. Acho que a parte que mais me incomodou neste livro foi isto. Shuggie não tem ninguém. O pai, um cabrão. A mãe, uma inútil que escolhe sempre o gajo errado (acho que até a perdoava não tivesse sido o envolvimento com Eugene). Os irmão, vítimas como ele, não conseguem mais e têm que se salvar a si mesmos, tal como Shuggie. Que as crianças são cruéis eu sei e até compreendo mas este miúdo não ter um amigo que seja até tão tarde, alguém que lhe dê algum alento, alguma esperança, faz-me muita confusão e entristece-me muito.

Vou querer ler Um lugar para Mungo porque fiquei com a sensação de um livro inacabado e mesmo não sendo este livro uma continuação, per si, da história, espero que o seja, de alguma forma.

O contexto em que a história se passa surpreendeu-me. Não me surpreendeu o facto de haver tanta miséria e esta estar associada a alcolismo e à dependência de outras substâncias. Surpreendeu-me o autor não conseguir (por não sentir, não querer ou não o ter experienciado??) mostrar nada de positivo naquela comunidade. Não é comum a miséria são tão ampla, não apenas de dinheiro mas de valores, beleza, bondade. Mas naquela comunidade é apenas o álcool e a mesquinhez que existe, ou pelo menos, apenas isso é percepcionado e transmitido pelo autor.