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Fev25

Maria do Rosário Pedreira

Temos de acreditar no que estamos a ler, ou não conseguiremos prosseguir até ao final do livro. Quando leio um bom romance, consigo visualizar as cenas, ponho rostos nas personagens, vejo-as dentro da minha cabeça a partir dos dados que o narrador me oferece, assisto aos seus gestos, às suas acções, elas estão vivas para mim. É isto, aliás, que os escritores consagrados referem quando dizem que ler lhes permitiu ser outras pessoas e que, depois, escrever foi frequentemente serem outros sem deixarem de ser quem são. Nos últimos tempos, porém, leio muitos originais em língua portuguesa em que não consigo acreditar, mesmo que por vezes os seus autores me digam que aquelas histórias aconteceram na realidade. É como se estivessem a dizer-me o que as personagens fizeram, sem eu, mesmo assim, as ver fazer nada; é como se as personagens começassem por ser descritas como irascíveis quando, ao longo de todo o enredo, têm a maior paciência do mundo e nunca se alteram. Tão-pouco consigo desenhá-las na minha mente, não têm rosto, são de papel, meras duas dimensões, caricaturas, arquétipos, nada mais. Como acreditar então nestas histórias, se nem as visualizo nem me convencem? E algumas até já estão publicadas... Penso que a verosimilhança e a consistência são dois dos mais importantes requisitos na ficção: mesmo para os autores que inventaram universos, como na boa ficção científica ou em Macondo, de Cem Anos de Solidão, quem não acredita naquilo tudo? Se querem escrever, leiam primeiro os grandes autores e aprendam com eles.