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Jan26

Maria do Rosário Pedreira

De Vittoria, enfim, apesar da alegria, apesar da confiança que nos merecia, sabíamos apenas o que víamos. Era distante, mas curiosa, acolhedora, mas reservada, precisa, mas evasiva. Havia no seu modo de falar um certo fatalismo que nos deixava perplexos. Ou fascinados. Eu contava-me entre os fascinados. Chegou um dia, com a sua gargalhada que começava grave e terminava aguda, comprou uma casa onde todos podiam entrar e sair à vontade, nunca discutiu com ninguém, nunca mudou de corte de cabelo e morreu numa banheira que todos conhecíamos muito bem, embora nunca tivéssemos entrado nela, apenas porque ficava ao fim do corredor, exatamente do lado oposto à porta de entrada. Um acidente, senhora doutora, um terrível acidente. Um infortúnio.

Chiara Valerio, Quem Diz e Quem Cala, tradução de Nuno Camarneiro, no prelo.