(Imagem de capa: Portrait de Denis Diderot, Fragonard)

Enciclopédia

[Do latim mod. Encyclopaedia, enkylikos paideía, ‘insturção circular, geral’.]

Substantivo Feminino

  1. Conhecimentos relativos a todas as ciências humanas
  2. P. ext. Obra de referência que expõe metodicamente os fatos, as doutrinas, resultados do saber humano universal ou específico de um ramo do conhecimento, biografias de grandes vultos, etc., e na qual se adota em geral a ordem alfabética
  3. Fig. Indivíduo de vastos conhecimentos, de muito saber; enciclopédia viva; enciclopédico; dicionário vivo; dicionário

Em seu sentido histórico, a enciclopédia é uma coletânea de nadas, uma tentativa de conter o mundo, tirando-lhe a verdade e deixando só a palavra. Um catálogo apenas de invenções, que coloca sob a mesma ordem o que provém do mundo biológico e o que está dentro da cultura; o existente e o assumido, o justo e o injusto, o que pertence e o que não pertence ao seu escopo, o que se adapta ou não à sua ciência.

Gênero que começou com a revolução científica, nenhuma espécie literária teve tanto sucesso quanto as enciclopédias em se diferenciar, ainda que seus livros busquem ser o mesmo. Só os dicionários, seus irmãos menores, com elas podem concorrer nesse quesito — mas as diferenças na definição de uma palavra, talvez justamente por conta de sua concisão, são em geral mais chocantes e perceptíveis que as diferenças entre conceitos, embora essas últimas sejam geralmente bem mais intensas.

A Enciclopédia moderna, original, traçou seu enorme volume precisamente no centro dessa encruzilhada, degustando, de certa forma, a questão irresolvível: o que está capturado lá é o pensamento, essa é sua definição irredutível, o conceito não visto, descrito em tempo real, sem a priori que lhe permita caber em forma definida para que assim se possa analisar os outros. Da mesma forma se deu o seu destino crítico, com uma das obras que fundou o cânone do iluminismo. Um leitor contemporâneo nela vê descrito o tempo, em diferentes formas, ao longo de cinco volumes. Proust é, nesse sentido, o sucessor de Diderot e D’Alembert.

A enciclopédia é um conhecimento seboso, inagarrável. Uma definição que vai se abrindo em outras possibilidades, conforme é necessária a consulta a outros subverbetes. Eventualmente seria necessária uma definição para cada letra, ou para cada espaço que se pode colocar entre uma letra e outra, para que a partir disso se pudessem formar ideias. Muito haveria de se estudar, contudo, de se compartimentar e organizar em categorias o branco, o espaço vazio, antes que se pudesse contemplar a materialidade trazida pelas palavras.

Muitos passos seriam necessários antes de se chegar a uma vírgula — afinal, ela é perigosa, pode criar mundos, inventar diferenças, separação. Mas, da forma que é o conhecimento das enciclopédias, já está presumida (às vezes, de forma até ingênua) a separação, o sentido das letras, a unidade entre uma palavra e dois pontos que antecedem uma definição. Resta ao livro então apenas capturar fac-similes, enumerar imitações, tentar guardar algo do mundo, e de seu movimento, em cada distância, 

Por fim, até por conta de sua importância, a enciclopédia é o gênero literário mais íntimo com a sátira. Grandes escritores transformaram-lhe, embaralharam-lhe a ordem alfabética, a ordem das razões, a unidade do sentido, o pressuposto da definição. Alguns fizeram dela um exercício filosófico, pode-se dizer, estipulando outras categorias que estavam fora do seu alcance, e com isso transformando aquilo que permanece dentro da obra. Alguns se limitaram a examinar as transformações de outrem, e com isso sonhar com uma nova enciclopédia, desenvolver — com muito esmero, com precisão e com rigor conceitual — uma projeção de uma projeção. Alguns fizeram dela seu gênero favorito.