Madame K - Jovina, desde a publicação de Agdá, que transformações estéticas e temáticas você percebe em sua poesia, e o que permanece como núcleo do seu projeto literário?
Jovina Souza - Desde meu primeiro livro, Agdá, optei por expressar um eu poético coletivo. Mas, a partir do meu livro intitulado P/ o homem da rua K, estou trazendo uma voz mais individual. Outra transformação, que posso citar, é o equilíbrio entre a forma e o conteúdo. Antes, eu me preocupava em comunicar ao leitor um certo conteúdo, apenas.
Minha poesia aborda várias temáticas. Contudo, o que permanece no meu projeto literário é a crítica à violência, física e simbólica, como mediadora das relações entre pessoas, grupos sociais e nações. Minha oposição à vitória inconteste do verbo matar é presença constante nos meus poemas. Utilizo o que tem acontecido com os peles da cor preta, no Brasil, como pretexto para mostrar a eleição da morte do outro como lícita ou necessária, enquantonorma da cultura e de quase todos os corações no meu pais e no mundo. Em todos os meus livros, há um convite aos subalternizados para construírem, juntos, a transformação que precisam para suas vidas e para o planeta, pois implorar ao perverso que mude sua ética não é cognitivamente razoável.
MK - De que forma sua formação em Letras e o mestrado na UFBA dialogam com a sua criação poética?
JS - A formação em letras não é fundamental para alguém ser uma escritora ou um escritor. No meu caso, ajudou muito eu ter me concentrado nos estudos relativos àteoria e à critica da literatura e da cultura numa perspectiva contemporânea. Com isso, pude acessar ideias que não circulavam nem circulam, efetivamente, para além do blá,blá,blá, no meu país. Foi uma fumaça boa que apareceu e partiu rsr. Com certeza, esses conhecimentos ampliaram meu entendimento sobre o percurso histórico- cultural dos peles da cor preta e sobre o fazer literário.A partir desses saberes, construíuma literatura com a pretensão de visibilizar vozes pretas, de hoje e de ontem, oprimidas no silêncio planejado. Tudo isso, a partir de uma visão que fui aprimorando sobre as relações entre literatura, nação,cultura e história. A análise do discurso da cultura também é fonte de conteúdo para meu texto poético.
MK - Você une poesia e prática educativa em projetos voltados à identidade negra. Como essa dimensão pedagógica influencia a construção de imagens, ritmos e vozes nos seus livros?
JS - A literatura é um texto pedagógico. Por isso, está nas escolas desde tempos antigos, servindo aos poderes e aos micropoderes como instrumento para formatação de subjetividades e transmissão de valoresinteressados. Uso essa potência do texto literário para desconstruir imagens negativas que circulam no cânone da sala de aula e espaços correlatos sobre pretos . Ao mesmo tempo, produzo outras imagens que possam despertar a auto estima dos mesmos. Represento também a vida de personagens e suas trajetórias vitoriosas frente ao processo escravocrata e ao racismo, a fim de, combater o niilismo que atinge a população preta. Nesse aspecto, meu texto poético pode ser visto como espaço, onde formas de luta são discutidas ou sugeridas, com o objetivo de encontrar saídas para nos livrarmos do extermínio planejado pelos brancos e pelos pardos, e imposto às crianças pretas, homens, mulheres e jovens.
MK - Em O caminho das estações e O amor não está, amor, corpo e cidade se entrelaçam em tensão. Como essas questões são reelaboradas em obras posteriores, como O levante da fênix e Estampas do abismo?
JS- No Levante da Fênix, representei o corpo vitimado como protagonista do seu projeto de libertação. A estratégia de desconfiar dos bons sentimentos humano, e duvidar da vontade do opressor em se transformar, permeia a linguagem desse livro .É quase uma teorização da impossibilidade de mudança sem ação daquele que sofre a violência. No livro Estampas do abismo, publicado pela editora Malê em 2023, o corpo é voz e memória, aprisionado na crença em deuses, no amor e no cultivo de sentimentos, como a esperança e a saudade. Dialogo um pouco com O emparedado de Cruz e Souza logo no poema que abre o livro. Traço outro percurso para os emparedados, sem deixar de mostrar as armadilhas cruéis que podem nos jogar no abismo ou trazê-lo para nossa vida quando a realidade é dissonante demais com o desejo.
MK - Quais foram as influências — literárias, musicais e de matriz africana — mais marcantes na sua dicção poética, e com quais autoras e autores você sente estar em diálogo hoje?
JS - Minhas influencias, sem duvida, vem de Lima Barreto, Solano Trindade, Carolina Maria de Jesus, Miriam Alves, Cuti e Conceição Evaristo. Os compositores do Bloco afro Ilê Aiyê, Bob Marley e Edson Gomes também fazem parte das minhas referências. Tenho lido muito escritoras africanas como, Paulina Chiziane, Amália Dalomba e Ana Paula Tavares. Contudo, não posso dizer que dialogo com elas, no momento. Atualmente, dialogocom Vânia Mello, Sandra Liss, Liliam de Almeida, Érica Azevedo, Dejanira Rainha e Anajara Tavares.
MK - Sua obra circula em feiras literárias, coletâneas como Cadernos Negros e também em mídias digitais. Que impacto essa circulação mais ampla trouxe para a sua escrita e para o alcance da sua poesia?
JS - Com certeza, esses espaços divulgaram minha pessoa como poeta e trouxeram para mim leitores e pesquisadoras(es) interessadas(os) em estudar meu trabalho aqui na Bahia, em outros estados e até no exterior. Através das festas literárias, entro em contato com meu leitor, ouço o feedback da leitura e temos diálogos produtivos para a melhoria do meu trabalho.Isso me deixa muito satisfeita. Os Cadernos Negros foi de importância extraordinária, inclusive, para minha decisão de continuar escrevendo, pois eu não tinha essa vontade.
MK - Você reflete com frequência sobre literatura negra e resistência. Como avalia, atualmente, o lugar da poesia negra na cena literária brasileira, em termos de crítica, mercado e políticas culturais?
JS - A literatura negra chegou nesse momento, sobretudo graças ao trabalho de um grupo de pretos (não de pardos nem de brancos) que durante mais de quarenta anos lutou em circunstâncias hostis e de muitos enfrentamentos. Podemos dizer que a literatura negra, hoje, tem um sistema literário próprio e um mercado emergente e forte. Contudo, os peles da cor preta estão sendo expurgados.
Os financiamentos de projetos que têm a literatura negra como foco são para os pardos e os brancos que historicamente avançam sobre a riqueza cultural construída pelos pretos, apenas, para usufruto próprio. Quando brancos (as) promovem os eventos de literatura negra ou colocam uma mesa nas festas literárias, chamam os pardos(as) que há bem pouquíssimo tempo não queriam ser chamados de negros e não aceitavam que suas literaturas recebessem o adjetivo negras. Quando os pardos fazem os eventos literários chamam os brancos ou seus iguais. Quando coloca um, para disfarçar, exclui centenas. Quase todos os grandes eventos que exploram a negritude pertencem a brancos e brancas ou a pardos e pardas.São essas pessoas que fazem o filtro dos conteúdos e, assim, vão determinando o que consideram pertinente que seja dito, inclusive o tom da fala textual. Prevalece a velha máxima: o produto cultural do preto, sim, ele não. 0 preto é apenas o tema. Os frutos das políticas públicas, que dizem ser para negros, não chegam para pretos. Essa é a grande jogada. É uma forma de preservar o racismo extermínio (direcionado, até agora, para quem tem a cor da minha pele) e ainda ganhar o certificado de antirracista.
Então, vejo a literatura negra se transformando em uma marca para atrair consumidores da falsa onda antirracista. Há um mercado da negritude, onde a identidade negra e sua expressão é controlada e comercializada. Desse modo, a literatura negra vai seguindo o mesmo caminho que outros produtos culturais, defendido pelos pretos, durantes décadas e séculos, ao custo, muitas vezes, das suas vidas, como éo caso da capoeira, do samba e outros. Quando brancos e pardos se apoderam de um bem cultural preto, eles retiram o que tem de resistência, de memória, de história, e vivências pretas desse bens culturais e os transformam em produtos de consumo e/ou num espetáculo, a fim de, ganhar dinheiro e prestígio para si e seus respectivos grupos sociais. As exceções existem, mas são poucas e ocasionais.
MK - Ao escrever sobre raça, gênero e cidade, quais são os principais dilemas éticos e estéticos que enfrenta para equilibrar testemunho e complexidade formal no poema?
JS - Produzir cenas e imagens positivas protagonizadas por pretas(os) em língua portuguesa é um trabalho árduo, uma vez que, nossa língua oficial está impregnada de racismo desde o seu nascedouro. É tarefa difícil encontrar na língua que falamos algo positivo sobre os peles da cor preta, principalmente sobre a mulher preta. Para uma escritora preta, lidar com a língua portuguesa é andar sobre lâminas. Falhar é o mais provável. Minha vigilância é grande. Sempre peço aos leitores e críticos que me avisem caso identifiquem alguma passagem, nos meus livros, ratificando o racismo vivo na linguagem
Penso que todo escritor é testemunha do que escreve. Ele não esta fora da realidade nem da experiência narrada ou poetizada. Quanto a isso, Flaubert já entregou a senha quando disse que Madame Bovary era ele. Certamente, o escritor se fragmenta em vários na cena da escritura para compor enredos, personagens e poemas, transformando seus pedaços em criação. A capacidade de se afastar criticamente de si mesmo é o que diferencia o escritor de outra pessoa que apenas escreve. Entendo que, nesse ponto, a feitura do poema é um ato de subversão e racionalidade. O limite da linguagem bota freio. Não deixa que a emoção, causada pelo fato vivido, ou testemunhado, tenha passe livre para o papel ou para a tele do computador. Gosto disso. Muitos dizem que meus textos literários são ficções, meras observações do real. Pode ser tudo isso e muitas outras coisas.
MK - Entre seus livros, existe algum que você considera menos lido ou menos compreendido? Que chave de leitura você gostaria de oferecer ao público para melhor entendê-lo?
JS - Sim, existe. É meu livro Memorial do espelho. Conto a história do Brasil a partir das mulheres pretas que cruzaram esses séculos de trucidamento do seu corpo, dos seus filhos, dos seus sonhos de liberdade, das suas ilusões de amor e das suas lutas vãs frente à nossa eliminação normalizada e pacificada. Somos o mesmo corpo empurrado para o túmulo. Uso muito a estratégia de apurar os ouvidos para ouvir minhas antepassadas. Nesse livro, elas vieram para meu espelho ditar os poemas que desejavam ver escritos. São rostos e vozes encortinados pelas crueldades indizíveis. Elas procuram o historiador ou a poeta. Tanto um quanto o outro quebram silêncios e fazem a memória se derramar.
MK - Quais caminhos futuros vislumbra para a sua obra em novos formatos, como performance e audiovisual, ou em temas ainda não explorados nos livros já publicados?
JS - Eu escrevo sobre o horror de se normatizar a morte do outro, sobre o silencio das exceções, dos deuses, das bocas que dizem beijar, das mãos que dizem acariciar e também dos corações que dizem amar. Eu tenho um coração que escuta e uma poesia solitária na espera de um dia bonito para se encher de pipas, voando bem alto, rimando sol e vida, comer, beber e brincar de amarelinha, junto com crianças pretas, risonhas, voltando para casa e todas as outras crianças e adultos que, apenas, pela cor da pele, gênero ou religião, encontram-se na fila de todas as morte. Acho que vou me tornar uma poeta de um tema só, até que o real acaricie meus olhos e meu coração. Certamente, não terei tempo para usufruir desse privilegio. Quanto ao futuro da minha obra, tenho planos de publicar segunda edição de alguns livros meus. Uma vontade que esbarra nos custos. Planejo, ainda me expressar através de outros gêneros literários, inicialmente, começar pelo conto.





