Auschwitz, Cidade tranquila | Primo Levi

A irracionalidade do holocausto, tema central da obra de Primo Levi, tem em Auschwitz o seu foco principal. Deparamo-nos com textos que funcionam como ensaios para o que viria a ser mais tarde escrito e desenvolvido noutros livros. Como se sobrevive a Auschwitz? Negando a essência que faz de um homem, um homem, e nisso construir o refúgio possível. Os que procuram manter-se eretos nos seus corpos curvados pela fome e os que se arrastam no lodo como se procurassem o seio da sua mãe. Toda a prisão é uma distopia humana e pessoal, em que cada um constrói a esperança de sobreviver mais um dia, em particular quando os tiros da artilharia Russa se começam a ouvir, cada vez mais próximos. Perder-se com a salvação ali tão perto.

Escrever sobre essa realidade sendo incapaz de lhe capturar toda a aspereza. Como a história de Rumkowsky, o autointitulado rei dos judeus que reinava sobre o gueto de Lódz, terminando ele próprio entre os plebeus que enviava para os comboios da morte. A ironia da vida sempre implacável com os mais fracos, com quem lhes cabe a vez de ser o mais fraco. Existia em Rumkowsky uma maldade pura? Não, apenas a resignação: se não fosse eu, outro o faria. A condição de servo está em reconhecer, em alguém, o seu senhor.

Quando o furacão passa são sempre as árvores mais altas a cair. Obedecer, cumprir, passar despercebido, não ser selecionado entre os que não regressam. Fazer de Auschwitz uma cidade tranquila, essa era a chave da sobrevivência.

Tal como Rumkowsky, também nós estamos tão ofuscados pelo poder e pelo dinheiro que nos esquecemos da nossa fragilidade essencial: esquecemo-nos que estamos toos nem gueto, que esse gueto é murado, que lá fora estão os senhores da morte e que não muito distante o comboio aguarda.

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