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«O tempo nunca falha nas suas habilidades»
Avisos de Conteúdo: Linguagem Explícita, Violência, Sexo, Assédio
O segundo dia do mês de junho incorpora uma data comemorativa vital: o Dia Internacional da Prostituta, com o propósito claro de alertar para a discriminação, a exploração e as condições de vida e de trabalho precárias.
A origem desta data transporta-nos para 1975, «quando mais de cem mulheres ocuparam a igreja de Saint-Nizier, em Lyon, em protesto contra a repressão sofrida na altura», denunciando «as multas recebidas, as detenções e os assassinatos de colegas que não eram investigados». A partir deste ponto da situação, e graças à ampla cobertura mediática que recebeu, foram organizadas outras manifestações em mais países, no entanto, esta ocupação «terminaria na madrugada de 10 de junho, após uma violenta expulsão» policial.
A indignação escalou pela brutalidade, portanto, desde 1976 que se relembra o incidente, procurando regularizar aquela que é tida como a profissão mais antiga do mundo. Embora o contexto seja diferente, porque é uma obra ficcional e retrata uma escolha deliberada e não por força das circunstâncias, achei que a narrativa da Carla Madeira se enquadrava no destaque a esta efeméride, atendendo a que a protagonista é prostituta.
AMOR: «UMA VERDADE À PROVA DO TEMPO»
Tudo é Rio é uma história triangular, que nos permite conhecer Lucy, «a prostituta mais conhecida da cidade», Dalva, uma mulher de origens tradicionais, e Venâncio, «senhor de uns ciúmes doentios». A maneira como as suas vidas se interligam é curiosa e dramática, porque o casal Dalva e Venâncio vê o seu amor a transformar-se em algo possessivo, enquanto Lucy assume a afronta de ter em Venâncio o único homem que a rejeita.
«Naquele momento, em que o opaco ganhou transparência, deixou ver o que tinha sido»
A escrita da autora é poética e é, em muitas passagens, provocante. Não sei se houve essa intenção, mas as suas palavras conseguem ser desconfortáveis, despertando reações viscerais no leitor e implicando-o nestas relações tão destrutivas, tão reais. Não vemos os rostos das personagens e, ainda assim, é como se estivessem à nossa frente; de repente, é como se presenciássemos o abismo e não as pudéssemos salvar.
«Perder amores é escurecer por dentro, uma memória do corpo
que o entardecer evoca quando tinge o céu de vermelho»
O amor, bálsamo desta narrativa, «é uma verdade à prova do tempo» e nós vamos acompanhando o tempo em que ele floresce e, depois, se desmorona como um baralho de cartas, porque há muitos comportamentos que se escudam no seu propósito, mas que nem sempre partilham da sua essência pura. Por isso, encontramos protagonistas imperfeitos, a tentar compensar falhas, a procurar sarar feridas, mesmo quando o processo de cura aparenta ser impossível. E como rio «que flui sem parar», oscilamos nas sucessivas divisões da dor.
«Deixe o luto para depois, temos o resto da vida»
Num plano cheio de contrastes, cruzamo-nos com temas delicados que expõem o pior do ser humano, como o sentimento de posse, a obsessão, a falta de valores, a hipocrisia. Por outro lado, mostra-nos o quão frágil pode ser a imagem que criamos dos outros, como há tanto que preferimos ignorar e a tentativa constante para preencher vazios. Fiquei fascinada com a ausência de filtros, com o despudor, com o debate interno sobre perdão e, indiscutivelmente, com a construção/crescimento de Lucy, que sempre quis ser prostituta - e cuja decisão abre uma porta para refletir sobre liberdade feminina a vários níveis. Sei que dificilmente a esquecerei.
«(...) mas é dentro, bem no lugar que a gente não vê, que o não dar conta ocupa tudo»
Desencontrei-me do rumo da história, quando esta se focou numa componente religiosa, porque, para mim, quebrou a independência moral das personagens. No entanto, valeu muito a pena embarcar neste Tudo é Rio.
🎧 Música para acompanhar: Lisboa, Anavitória & Lenine
📖 Exemplos de livros com personagens prostitutas/que abordam a prostituição:
A Vida Oculta das Coisas, Cláudia Cruz Santos;
Pantaleão e as Visitadoras, Mario Vargas Llosa;
Jovens Polacas, Esther Largman;
Tereza Batista Cansada da Guerra, Jorge Amado;
Filha, Mãe, Avó e Puta, Gabriela Leite;
Eu Sou Uma Acompanhante de Luxo, Andreia Montenegro;
Prostituição Feminina, Priscilla Gershon;
Prostituição Masculina em Lisboa, Hermínio Clemente e António Duarte;
A Casa, Emma Becker.
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