O advento do digital a levar-me para leituras que não seria provável ter na estante.

(e, verdade seja dita, não tenho!)

Ando, como todos nós, de cabeça em água, pelo que peguei num thriller (riam-se comigo!) que prometia leitura rápida. Leituras de verão e o quê. Peguei neste em particular porque "ganhou" um Goodreads Choice Award há uns anos. Sim, este é definitivamente o tipo de livro que eu não costumo ler, e tudo o que sabia sobre o livro é que o autor lançou um novo, recentemente, e diziam que este era muito bom.

O livro abre com as páginas de diário de uma mulher, Alicia, que menciona andar algo psicologicamente instável (o que não seria inédito nela) e que acha que escrever o diário a poderá ajudar. O livro não consiste, no entanto, inteiramente no diário: algumas entradas são intercaladas com a narração de Theo Faber, psicanalista, que começa a sua "parte" do livro com a informação chocante que Alicia terá matado o seu marido, Gabriel, de forma absolutamente violenta (tendo-se tentado suicidar de imediato) e está, desde então, internada numa unidade psiquiátrica para indivíduos altamente perigosos. Desde esse evento, nunca mais falou. Theo alega ter interesse profissional no caso, e está entusiasmado quando surge uma vaga na unidade em que Alicia se encontra, apesar de esta unidade poder vir a encerrar em breve por falta de fundos.

Alicia fora uma artista de sucesso, e Gabriel um fotógrafo de moda de renome. O casal era aparentemente feliz, e não se compreende o porquê de ela o ter matado - foi condenada por ter sido encontrada com a arma do crime na mão e por nunca ter falado em sua defesa.

E Theo acha que será capaz de fazer Alicia falar.

Excelente premissa, bom twist, mas insatisfatório a vários níveis. Apesar do espaço onde a maioria do enredo é passado, não se debruça muito sobre questões de psicologia ou psiquiatria, por exemplo (apesar de sabermos as motivações de Theo para enveredar por esta carreira, sabermos o que o levou a ele próprio a procurar terapia, etc, etc), não se tornando pesado. É, aliás, bastante superficial em partes.

O facto de Theo parecer passar mais tempo envolvido em histórias de detectives do que em sessões de terapia parece bizarro, mas diria que acaba por fazer sentido. Ainda assim, os vários personagens da vida de Alicia são algo forçados: o cunhado que vivia na sombra do marido dela, e que a desejava, a família nuclear terrível, o melhor amigo com interesses subjacentes e que poderia não gostar tanto dela assim... e mesmo os sentimentos de Theo para com os colegas de trabalho parecem pouco adultos, por assim dizer.

E, apesar do tempo despendido a demonstrar o quão manhosos e de pouca confiança eram todos estes elementos, tudo isso acaba por não dar em nada. Estratégia para distrair o leitor e preparar o twist, ou inúmeras pontas soltas?

Acho que são estes factores que fazem com que o livro se perca, a determinado ponto. O livro começa bastante sólido (apesar do tipo de livro que é, vá...), prende o interesse (o que faz com que se leia efectivamente muito rápido) - mas o autor parece ter ficado um pouco focado no twist final, que só se dá a cerca de 20 páginas do fim, e fica tudo um bocado forçado e preguiçoso.

Embora não estivesse à espera da resolução, confesso que fiquei mais confusa (num primeiro momento) do que entusiasmada; também o motivo pelo qual Alicia decidiu não falar mais não me convenceu, até porque, tendo em conta o desfecho, ela teria muitos motivos para falar.

Apesar de tudo isto, acho que The Silent Patient é um livro bastante decente e deve ser uma boa leitura para fãs do género. Li este em dois dias, diverti-me a lê-lo e sou capaz de ler o mais recente dele, também. Gostei do facto de só conhecermos Alicia pelo seu diário, que continha apenas as últimas poucas semanas antes do homicídio do seu marido. Apesar de roçar um pouco o murder mystery, não achei muito manhoso (que é a opinião que geralmente tenho de thrillers e mistérios, confesso: que vai ser mau).

Fun fact: é mencionada, em vários momentos do livro, uma peça de Euripides, Alcestis. Nunca li (dele, só li Medea), mas vi Alcestis (do Glück) em ópera há uns anos no S. Luiz e foi aí que percebi que não gosto de ópera. Consegui apreciar esta intertexualidade, apesar de não ter amado o livro. Também saiu recentemente um desses retellings de mitologia grega intitulado Alcestis, e se calhar até sou capaz de querer ler (mas tenho ali o Achilles da Madeline Miller e o outro também sobre a Guerra de Tróia da Pat Barker nas estantes para ler primeiro).

O meu problema: acho que não sei escolher este tipo de livros.

3/5

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