O carregador de pianos - I

carrego o piano para

onde o maestro morre.

persigo-o na cinza da

música.

o jazz invade o lume

ébrio, o êxtase das frases.

invade de seiva

a árvore dos pentagramas.

o piano acompanha

os acólitos do álcool.

a árvore dos pentagramas

vive no rosto dos acólitos do álcool

e da seiva.

a seiva é também

o caudal de um rio

de antigos escravos.

foz de um rio de escravos.

os dedos estão libertos

agora que o cérebro

inventou os dedos da música.

o jazz invade o lume

em cascatas de swing.

carrego o piano para

onde o maestro morre.

mas morre livre

entre vozes que cantam e estrelas

João Candeias

poezz

jazz na poesia em língua portuguesa

almedina

2004

 

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