Em 2025 (não se sabe o dia), segundo alguns cálculos, comemoram-se os 760 anos do nascimento de Dante Alighieri (1265-1321). Por um feliz acaso, aqui no Brasil, há dois livros recentemente publicados que lhe rendem homenagem: um é Dante e a medicina (Ed. Madamu, 2025), conjunto de brilhantes ensaios reunidos por Marcelo Toledo; outro é O meu Dante — 1965/2021 (Ed. Ateliê, 2024), organizado pela professora Maria Cecilia Casini. Ela retomou e completou o trabalho que, em 1961, havia sido iniciado por Edoardo Bizzarri, então Diretor do Instituto Italiano de Cultura, também chamado “Casa di Dante”, que tinha sede na Palazzina Filizola, da São Paulo antiga, sita à rua Frei Caneca, 351, como lembrava, em conversa, Antonio Candido.

Bizzarri havia convidado alguns entre os maiores intelectuais da época, conhecedores da obra de Dante, para que — inspirados em sua obra — escrevessem um texto livre, como ensaio ou conferência, chamado “O meu Dante”. Dez atenderam a seu pedido, e o livro com o mesmo nome foi publicado no Caderno 5 do Instituto em 1965, sem reedição. Quase sessenta anos depois, a obra foi complementada por Casini, e catorze novos autores brasileiros aderiram ao projeto.

Quero aqui contribuir à homenagem lembrando o texto do grande poeta russo Óssip Mandelstam “Conversa sobre Dante” (Razgovor o Dante, Мoscou: Ed. «Iskusstvo», 1967), quase desconhecido no Brasil (apenas Marco Lucchesi aludiu, em seu ensaio, à abordagem “química” que ele faz da Comédia). Proponho verificar quais das conclusões por ele apresentadas coincidem com as de alguns dos intelectuais brasileiros, de antes e depois de 1965, sobre a obra-prima de Dante.

Attilio Runcaldier (1801-1884), Ritratto di Dante, Museo Dantesco.

Comecemos com a premissa de Dante Milano, abrindo a perene questão da forma e do conteúdo:

Toda a arquitetura da Comédia ruiria se não estivesse sustentada pela estrutura metálica dos decassílabos dantescos (…). O grande Dante para mim não é o humanista, o filósofo, o teólogo — tudo o que ele podia ser, sem ser por isso um grande poeta. Para mim ele é o poeta dos versos inesquecíveis. Só isto — para ser um poeta — escrever versos inesquecíveis.

Haroldo de Campos, assumindo perante o genial florentino “uma perspectiva de escolha pessoal, respondendo a um critério talvez de afinidade eletiva”, declara:

Dante é, essencialmente, um criador de formas, um poeta-inventor, um pesquisador incansável da linguagem. Em suma: um poeta experimental. Um poeta de vanguarda. Cuja modernidade e ousadia não foram amenizadas pela pátina do tempo, nem pela canonização das histórias literárias, mas permanecem, em toda a sua agressiva originalidade, atravessando os séculos.

Miguel Reale complementa:

O que prevalece [na Comédia] é um modo expressional diverso e próprio, perdendo os conceitos sua validade abstrata para adquirirem aderência mais íntima com as coisas significadas. A experiência filosófica confunde-se com o conteúdo mesmo da poesia, numa linha de continuidade espontânea que a unidade da consciência poética torna possível.

E Óssip Mandelstam arremata:

Não há apenas uma forma em Dante, mas uma multidão de formas, [sendo que Dante entende a forma] como sendo espremida para fora de algo e não como cobertura desse algo: 

Io premerei di mio concetto il suco (Inferno, XXXII, 4).

Desse modo, por mais estranho que possa parecer, a forma é espremida para fora do conteúdo-conceito que parece envolver a forma [suco].

Quanto à alusão de Marco Lucchesi à “abordagem química da Comédia”, aqui vai a explicação de Mandelstam:

A estrutura do monólogo dantesco (…) pode ser bem entendida fazendo uso de uma analogia com as camadas de uma rocha, cuja pureza tenha sido alterada pela intrusão de corpos de outra natureza.

Misturas granulares e veios de lava indicam uma falha, um desvio ou uma catástrofe como origem comum da formação.

A poesia de Dante é constituída e aclarada exatamente nessa maneira geológica. Sua estrutura material é infinitamente mais significativa que sua celebrada qualidade escultural. Imagine um monumento de granito ou de mármore cuja função simbólica não vise representar um cavalo ou um cavaleiro, mas sim revelar a estrutura interna do mármore ou do granito em si. Em outras palavras: imagine um monumento de granito erigido em honra ao granito e, ao mesmo tempo, como que revelando sua própria ideia. Se compreender isto, terá compreendido claramente como a forma e o conteúdo se relacionam em Dante.

E ainda:

Agora, quanto às imagens de Dante, consideremos o canto XVII do Inferno como um todo do ponto de vista de sua imagética químico-orgânica que nada tem de alegórico. Em lugar de repetir o assim chamado conteúdo, consideraremos essa unidade do trabalho de Dante como uma transmutação contínua do substrato do material poético que preserva sua unidade, mas tende a penetrar dentro de si mesmo. Este canto é uma demonstração milagrosa dessa transmutabilidade do material poético. [O canto retrata a descida horripilante de Dante e Virgílio do sétimo para o oitavo círculo do Inferno, na garupa do monstro Gerião ] (…). O pensamento imagético de Dante, como o de qualquer verdadeira poesia, percebe-se graças à peculiaridade da matéria poética à qual sugiro denominar convertibilidade ou transmutabilidade. (…) O fluxo de Dante é um tratado de metamorfose no sentido de que penetra os muitos estratos do poético tal como o médico que, para fazer seu diagnóstico, ausculta a unidade do organismo feita de uma multidão de órgãos.

E, para terminar esta breve conversa, vejamos a questão do “impulso” em Dante, tratada por Mandelstam e Milano. O material poético, diz Mandelstam,

Não possui voz. Não pinta com cores, nem se explica em palavras. Ele não tem forma nem conteúdo pelo simples fato que ele só existe enquanto é performado (v ispolnenie: numa atuação). O produto acabado nada mais é do que um produto caligráfico, o resultado inevitável de um impulso para a realização. (…) No caso de Dante é mais conveniente se falar em criação de impulsos e não de formas, impulsos esses têxteis, navais, escolásticos, meteorológicos, engenheirísticos (…).

Dante Milano, por sua vez, avalia que

Em vez de descrever o cair da tarde de modo objetivo, pictural, ele nos comunica o “mistério” da tarde. Esta é a grande poesia. A hora do entardecer não nos causa uma impressão descritiva, mas subjetiva; não vemos nas cores morrentes do céu uma vaga paisagem: antes sentimos uma tristeza funda, a nostalgia de existir.

Era già l’ora che volge al disio
ai naviganti e intenerisce il core
lo dì c’ han detto ai dolci amici addio. (Purgatório, canto VIII 1-4)

Não é descrição metafórica, mas sensação misteriosa. Assim se diferencia a poesia autêntica da maior parte da poesia que se escreve no mundo, descritiva, objetiva, realista, que fica na superfície das coisas sem as penetrar. Dante contradiz a todos os preceitos das escolas poéticas de qualquer época, e os supera. Faz uma poesia lógica e atinge o sobrenatural e as maiores rarezas da expressão. Seu estilo direto tem uma penetração que jamais seria alcançada por inversões rebuscadas. Seu verso nasce de um ímpeto, soprado pelo vento do espírito. Sua força poética não fica nas palavras, vai muito além. Sua frase cria espirais vertiginosas (…). Não é à toa que, ao contrário da prosa, cada verso é separado do outro, com vida própria.


Aurora Fornoni Bernardini é escritora, tradutora e professora titular da USP no Departamento de Línguas Orientais e na pós-graduação no Departamento de Teoria Literária e Literatura Comparada. Graduou-se em inglês (1959-1963) e em russo (1962-1966) pela USP, onde ainda concluiu seu mestrado (1970, sob orientação de Boris Schnaiderman) e doutorado (1973, sob orientação de Alfredo Bosi) sobre o futurismo russo e italiano, e sua livre-docência (1978) sobre Marina Tsvetáieva. Dedica-se também à pintura, tendo realizado exposições individuais e coletivas.