"A Filha da Floresta (Sevenwaters 1)", de Juliet Marillier (Bertrand Editora)
Sinopse:
Passada no crepúsculo celta da velha Irlanda, quando o mito era Lei e a magia uma força da natureza, esta é a história de Sorcha, a sétima filha de um sétimo filho, e dos seus seis irmãos.
O domínio Sevenwaters é um lugar remoto, estranho, guardado e preservado por homens silenciosos e Criaturas Encantadas que deslizam pelos bosques vestidos de cinzento e mantêm as armas afiadas. O maior perigo para este idílio vem de dentro: Lady Oonagh, uma feiticeira, que casou com o pai de Sorcha, senhor de Sevenwaters. Frustrada por conseguir encantar todos menos a enteada, Oonagh lança um poderoso feitiço sobre os irmãos da rapariga, que só Sorcha poderá conseguir quebrar. Porém, a meio da pesada tarefa de libertar os irmãos, Sorcha é raptada por um grupo de salteadores, e ver-se-á dividida entre o dever de salvar a vida dos irmãos e um amor cada vez maior, proibido, pelo senhor da guerra que a capturou.
Opinião:
É-me um pouco difícil expressar correctamente o que senti com a leitura deste livro. Parece-me que comecei a lê-lo no momento errado da vida (com a minha mãe doente), mas ainda assim consegui admirá-lo e, a certa altura, adorá-lo. Li-o devagar ... muito devagar. Sem pressas de qualquer espécie, de tal forma que por vezes até me irritava com a minha vagareza, mas a verdade é que é um livro que me pareceu que merecia ser lentamente apreciado. E apesar dos imensos elogios que sempre ouvira relativamente a esta obra, tentei começar a leitura sem expectativas (embora na verdade nunca o consigamos, quando todos nos dizem que é bom). Por isso deixo aqui o agradecimento às muitas pessoas que me 'pressionaram' para ler o livro. Valeu a pena, e aqui ficam algumas das razões porquê:
O que mais gostei no livro, foi sem dúvida o foco na união familiar. Adorei a relação entre os irmãos, e como estes se apoiavam mesmo em situações que pareciam duvidosas, e nunca parecendo forçado. É lindo ver uma relação assim e só tive pena de não ter tido mais páginas para conhecer ainda melhor todos seis irmãos (espero que isto seja mais aprofundado nos próximos volumes). Em cada diálogo e em cada descrição que a Sorcha fazia dos momentos que tinha com os irmãos, notava-se o amor e o elo que os unia.
Também no caso do Simon e do Red isto se notou, embora de forma um pouco menos notória, mas não menos interessante. A forma como Red partiu, sozinho, em busca de Simon, mostrou definitivamente que os receios do Simon em relação ao amor da família não tinham fundamento.
A caracterização das personagens está fabulosa. Todas têm vida própria e têm bastante profundidade, distinguindo-se umas das outras e tornando a narrativa muito mais interessante. Sorcha destaca-se por razões óbvias, pois além de ser a protagonista, tem uma personalidade excelente e todas as suas acções ao longo do livro comprovam o que o leitor assume logo desde o início da narrativa: que a Sorcha pensa mais nos outros do que em si mesma e é capaz de dar a vida pelos irmãos 8além de ser bastante ingénua em certas situações).
Mesmo as personagens secundárias conseguiam destacar-se por serem bastante independentes.
Quanto aos vilões, achei que a maioria deles foram pouco caracterizados, também por culpa de a Sorcha ter pouca interacção ter com eles (sendo ela a narradora é natural que a sua visão seja limitada). Oonagh pareceu-me muito interessante e promete ainda muitos sarilhos, mas infelizmente o Richard, enquanto vilão, deixou muito a desejar, especialmente quando começou a divulgar os seus planos (está certo que ele só o fez porque pensou que a Sorcha nunca falaria, mas ainda assim ...).
Gostei muito do final, pelo que representou para Sorcha e Red, no entanto achei que todos em Sevenwatres aceitaram o novo 'estado das coisas' um pouco depressa demais (em relação à Sorcha). Claro que nós, enquanto leitores, sabíamos que era o mais acertado, mas a família da Sorcha, depois de tudo o que se passou, não deviam aceitar tão ... facilmente toda a situação.
Adorei também todas as Lendas e Fábulas que nos eram apresentadas ao longo da narrativa, e claro não me escapou (assim como também Sorcha se apercebeu) que a história deles dava também uma dessas narrativas heroícas, e que a autora conseguiu transmitir da melhor forma.
A autora é uma contadora de histórias nata, e isso percebe-se em cada linha. Adorei a narrativa e achei que a escrita estava extremamente cuidada, no entanto, parece-me que ela falhou em certos momentos cruciais, pecando pela falta de detalhes. Refiro-me concretamente a dois momentos: 1) quando Sorcha vê pela primeira vez Oonagh, em que a autora nos diz de imediato que ela é má, mas o problema é que a autora se esquece de descrever porque é que Sorcha achou isto desde o primeiro momento em que a viu. Tem de haver uma razão, certo? E ao não explicar, ficamos simplesmente com a ideia que a Sorcha não tem razões para a odiar (pelo menos não até mais tarde); 2) Quando os irmãos são amaldiçoados. A autora escolheu descrever a transformação apenas numa curta frase, e quando terminou eu nem tinha percebido o que se tinha passado, pois foi muito curta e pouco explicativa. Parece-me que um momento alto da trama como aquele, merecia mais atenção e descrição.
Em contrapartida, a autora tem descrições maravilhosas das florestas, das lendas e até do passado das personagens, mas em situações como as acima referidas, fica a dever muito à narrativa, fazendo com que estes momentos percam força.
No geral, esta foi uma história excelente, que me manteve colada às páginas quase desde o início, e que me apresentou personagens fabulosas que adorei (especialmente Sorcha, Finbar, Red e Simon), que me fez chorar várias vezes mas que também me aqueceu o coração em vários momentos. Adorei! E embora a história termine de uma forma semi-satisfatória, a verdade é que há ainda muito para contar e mal posso esperar para regressar a Sevenwaters.
Parece-me que a saga Sevenwatres tem sérias hipóteses de se vir a tornar uma das minhas favoritas, se os restantes livros forme tão bons ou melhores que este.
Tradução:
Apesar de a tradução estar bastante boa, ao longo da leitura reparei em alguns erros, por vezes de fraseamento, outros de tradução. Foram muito poucos, e não incomodaram a leitura, por isso não lhes prestei grande atenção, mas foi impossível não reparar.
Capa, Design e Edição:
Apesar de não ser o tipo de capa que me chama à primeira vista, confesso que me 'afeiçoei' a ela ao longo da leitura. Retrata bastante bem o ambiente do livro e um pouco da história central.
Tenho que fazer também um comentário à impressão, pois encontrei muitas páginas onde algumas letras estavam 'apagadas', não por ser uma edição antiga, mas possivelmente por um defeito de impressão. Era sempre no fundo das páginas, e embora se percebessem as palavras por conjugação, a verdade é que era chato estar a ler e faltarem letras.
