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| Fotografia da minha autoria |
«Nosso Senhor do Coisinho não julga. Manda bocas, mas não julga»
O último contacto que tive com telenovelas foi, possivelmente, a sequela de Jardins Proibidos, porque, durante a minha adolescência, foi um enredo que me marcou. Porém, deixei de me identificar com a abordagem padronizada e estereotipada. Além disso, descobri nas séries o meu foco de interesse e larguei a mão do primeiro formato. Mas se estivermos a falar de uma paródia do mesmo, então, conquistaram a minha atenção.
A RTP tem sido pioneira na capacidade de pensar fora da caixa e de investir em conteúdos que nunca vimos - ou que são pouco usuais na nossa grelha televisiva -, que nos desconcertam e que nos prendem do início ao fim. Por essa razão, assim que me cruzei com o anúncio de Pôr do Sol, anotei a data de estreia, pois não queria perder. Confesso que o primeiro episódio me deixou sem palavras, porque fui às cegas. No entanto, regressei no dia seguinte. E em todos os outros depois desse. Porque a surrealidade do projeto cativa - e vicia.
Em traços gerais, Coyote Vadio produziu «a história de uma família rica, uma gémea boa e uma gémea má, uma banda juvenil e, ainda, uma revista de moda do mais fashion que se possa imaginar». O grande fator diferenciador é o tom de sátira, que deslinda a imagem repetitiva das telenovelas, acrescentando uma dose de nonsense. E creio que esse é, também, o segredo do seu sucesso: porque o público reconhece o ridículo de certos comportamentos/diálogos/caminhos narrativos. Em simultâneo, são as inúmeras referências que nos desarmam, pelo seu traço tão peculiar, e que nos direcionam para o único cenário possível: a gargalhada.
Um aspeto curioso e que, no meu entender, revela o lado camaleónico e o brilhantismo dos envolvidos, é que o elenco esteve a ironizar personagens às quais já atribuiu voz e identidade noutros projetos - sem, no entanto, desrespeitar essa caminhada. E sinto que, pela energia do argumento, foi um desafio maravilhoso de abraçar: não só por ser distinto, surpreendente, mas também pelas reações que poderia despoletar. Embora anseie uma resposta positiva, não sei se o futuro nos reservará uma segunda temporada. Independentemente disso, marcaram a produção audiovisual, em Portugal. E o público, fiel e interventivo, não mais se esquecerá.
Nunca um Pôr do Sol foi tão cómico. Absurdo. Genial. Contudo, este superou todas as expectativas. Com muito mistério, amor e loucura à mistura, só espero que o Nosso Senhor do Coisinho nos salve das saudades.
- os episódios estão disponíveis na RTP Play -
