Para quem andou distraído, aqui fica um pequeno resumo do que se passou nos últimos dias à volta de uma biblioteca pública encerrada há anos, entretanto reaberta e logo encerrada novamente.

No dia 6 de Junho, um grupo de cidadãos decidiu reabrir a Biblioteca Popular do Marquês, no Porto, inaugurada em 1948 e, desde 2001, entaipada e deixada ao abandono como tantos equipamentos públicos deste país. Depois de reabertas as portas, iniciaram-se as limpezas, os pequenos arranjos e a reunião de novos materiais (livros, mesas, cadeiras, almofadas, etc) para que a biblioteca pudesse voltar a estar ao serviço da comunidade. Quem passar pelo blog que foi reunindo imagens e testemunhos do projecto em curso de recuperar a biblioteca para a comunidade percebe que não estamos a falar de 1) vândalos que retiraram os tapumes postos desde 2001 porque queriam um sítio para se drogar; 2) perigosos terroristas que se preparavam para criar bombas artesanais a partir de papel velho; 3) gente alucinada que não tem mais nada que fazer na vida para além de aborrecer o pobre presidente da Câmara Municipal do Porto. Falamos de pessoas que vivem no Porto e que, cansadas de verem um equipamento como aquele deixado ao abandono por incúria da Câmara Municipal, decidiram colocá-lo em funcionamento com as suas próprias mãos, recuperando-lhe a vocação original. Afinal, trata-se de um espaço público (e andamos a precisar de discutir este conceito, porque parece cada vez mais que ‘público’ é tudo o que é património de Câmaras Municipais e que, portanto, pode ser guardado à vista de todos, mas não pode ser utilizado por todos) que, sem subsídios nem pedidos de empréstimo ao FMI, voltou a funcionar e a estar disponível para todos. Como de costume, a Câmara Municipal do Porto não gostou que os seus cidadãos tomassem uma iniciativa destas, intervindo directamente na vida da cidade que é a sua, e decidiu que a Biblioteca Popular do Marquês tinha de ser despejada e novamente entaipada. Portanto, não existe biblioteca porque a CMP não tem como mantê-la aberta (verbas, recursos, etc, etc, etc); quando um grupo de cidadãos se dispõe a gerir colectivamente a biblioteca, sem pedir um tostão ao erário público e envolvendo a comunidade na responsabilização pelas tarefas necessárias ao funcionamento daquele equipamento, a CMP também não acha bem e chama a polícia para recolocar os tapumes. É nisto que estamos.

Curiosamente, o Diário de Notícias conseguiu a proeza de publicar, na edição impressa do dia 19 de Junho (impressa durante a noite e distribuída pela manhã, como costuma acontecer com os jornais diários), uma notícia que descrevia o processo de despejo da Biblioteca Popular do Marquês pela Polícia; até aqui, nada de extraordinário, não se tivesse dado o caso de esse despejo ter acontecido no próprio dia 19, horas depois da distribuição do jornal, e de vários factos apresentados na notícia nunca terem ocorrido, como se pode ler aqui.