Fotografia da minha autoria

«O eterno dilema artístico»

A minha empatia - e predisposição temporal - não é transversal e unânime a todas as representações artísticas. Quando me perguntam se prefiro o livro ou o filme, a resposta é rápida e determinada: o primeiro. No entanto, se for para escolher entre uma obra literária e uma série, é provável que o meu coração vacile, pois são dois formatos que me entusiasmam. E, aí, dependerá muito da vontade emocional.

Há um dilema recorrente: ler e, depois, ver a adaptação. Ou, então, inverter a ordem. Por norma, e porque sou feita de palavras escritas, opto pelo cenário número um, até para me envolver no enredo a fundo e criar um vínculo mais estreito com as personagens, idealizando os lugares, os aromas e a própria cadência da conversa. Mas isso pode, posteriormente, revelar-se um problema, tendo em conta que o produto audiovisual pode não corresponder à imagem criada. Por essa razão, procuro desconstruir esta ligação e assistir sem preconceitos associados, porque cada manifestação de arte é independente e não deve perder a sua autenticidade criativa. O importante, acima de tudo, é que a linha técnica respeite a essência da história. Porque, por muito que as escolhas de adaptação divirjam do texto base, se existir esse cuidado, temos mais um motivo para nos perdermos naquela realidade.

Quando abraço obras cinematográficas de livros que já tive a oportunidade de descobrir, não pretendo encontrar todos os detalhes condensados, até porque não seria exequível. Quero, sim, que a mensagem não se desvaneça. E que não cortem aspetos fundamentais para a compreensão da narrativa, produzindo, inclusive, inferências erradas. Para quem tiver lido, será fácil preservar a verdade. Porém, para quem apenas ficar pelo filme pode ser a [gigante] diferença entre apaixonar-se pela prosa ou permanecer indiferente à sua magia. Logo, para mim, é mesmo imprescindível essa consideração - razão pela qual estimo muito mais os livros. Honestamente, há alterações que não me causam qualquer incomodo. Contudo, quando interferem com os pontos-chaves de cada contexto fico desmotivada. Pois parece que, a dado momento, o foco mudou. E o original deixou de ser valorizado.

O exemplar que selecionei para responder ao primeiro tema, de 2020, do The Bibliophile Club foi adaptado a série. E sinto que, mesmo existindo aspetos diferenciadores entre o escrito e o que aparece no ecrã, a aceitação será mais suave. Porque terá outros argumentos a justificar as decisões criativas. Além disso, por ser uma produção mais longa, acaba por haver a necessidade de introduzir informações adicionais. Sendo este um dos meus programas de eleição, estou desejosa de me aventurar numa maratona, descobrindo A História de Uma Serva de outro ângulo. Com outra urgência. E com uma nova energia.

Os livros serão sempre a minha prioridade. Contudo, neste processo feito de arte, a porta está aberta para que eu seja surpreendida. Quando chegar ao último episódio, descobrirei se esta premissa, que defendo com convicção, continuará inabalável. Porque não há nada como ver duas produções distintas a estabelecerem uma simbiose perfeita, elevando a nossa experiência e tornando-a duplamente especial.