Ramon Amorim

Créditos da imagen: Barton Lidicé Beneš, Untitled, 2006.
O êxito da terapia antirretroviral (TARV), além de ser medido pelo declínio na quantidade de mortes em decorrência da aids, também é percebido na constatação do grande número de pacientes que vivem com HIV, porém sem desenvolver qualquer efeito direto dele no organismo. O controle viral, possível pelo acesso e pela adesão ao tratamento, significa manter indetectável a carga viral presente na corrente sanguínea.
Nas produções brasileiras, as questões que giram em torno da indetectabilidade da carga viral estão presentes em parte das obras publicadas a partir da segunda década do Século XXI. Não se pode perder de vista que muitas das abordagens que aparecem nas narrativas sobre o tema estão diretamente relacionadas à evolução das terapias disponíveis e do seu efeito.
O primeiro registro localizado da presença da ideia da carga viral indetectável está no relato autobiográfico O segundo armário, de Gabriel de Souza Abreu. Nele, o narrador inicia o tratamento já tendo a certeza do que os antirretrovirais irão possibilitar a indetectabilidade do vírus: “Estes medicamentos irão quase zerar a quantidade de HIV no meu sangue, aumentar minha imunidade e diminuir em 96% o risco de transmissão do vírus aos meus ‘possíveis’ parceiros sexuais em caso de acidente.”
Outra narrativa que apresenta uma série de questões importantes para pensar a indetectabilidade é 5 anos comigo, de Thais Renovatto. No seu relato, a reitera reitera que está com a carga viral indetectável e que por isso não transmite HIV por via sexual. Assim, abre-se para a narradora, a possibilidade de manter um relacionamento sorodiscordante ou mesmo engravidar e ter filhos soronegativos.
Então eu preciso estar pronta para iniciar o esquema que estiver mais apto ao meu perfil para que eu fique indetectável, ou seja, um tratamento para o HIV de maneira estável, em que a carga viral no sangue seja inferior ao nível de detecção (menos de 40 cópias/ml). Com isso tanto a doença não evolui no meu corpo quanto é um controle da epidemia, visto que enquanto eu estiver indetectável eu não consigo transmitir a doença a ninguém.
O que pode ser observado nas duas produções é a busca de uma espécie de vida normal (sem as aspas que quase sempre acompanharam essa sentença quando ela fazia referência a alguém vivendo com HIV), oportunizada pela consolidação da TARV. Isso significa um novo paradigma para o que é viver com o vírus e produz uma série de novas experiências impossíveis de se cogitar durante as primeiras décadas de emergência da crise da aids.