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Experiente, Franco Perpétuo traduziu os maiores nomes do país, como Tolstói
Bruno Pernambuco
Como Ler os Russos, lançamento da Editora Todavia, é um livro que surgiu pautado, de cara já dada, com título, forma e conteúdo definidos. Tanto o admite, em conversa virtual com este repórter, Irineu Franco Perpétuo, autor da empreitada e responsável por enfrentar a enumeração e organização de três séculos de literatura russa em seções condensadas, estruturadas, que vão direto ao ponto, a respeito de seus artistas sem tirar a graça de sua literatura.
Franco Perpétuo reconhece que o volume exigiu “leituras sistemáticas, anotadas, atentas e abrangentes” que lhe são incomuns. Como resultado desses esforços, nasceu um guia que é um convite sincero e amigável à literatura de um país tão longínquo e, sob certos aspectos, tão pouco compreensível a um leitor brasileiro, como a Rússia. Sem ter exatamente o didatismo de um manual de leitura, nem a concentração de uma tese acadêmica, serve tanto como introdução a um leitor inexperiente, a um mundo potencialmente amedrontador com nomes difíceis de compreender à primeira vista, quanto como companhia de viagem a quem, numa leitura organizada ou desatenta, com maior ou menor devoção, mais tenha interesse em compartilhar opiniões sobre aquilo que foi lido — e devora os clássicos russos.
Especialmente durante seus “anos dourados”, entre os anos trinta do século XIX e os dez do XX, com sua profusão de autores-profetas, que de forma particular interpretavam sua palavra, e que muitas vezes rivalizavam-se abertamente, disputando até mesmo a natureza da realidade, uma das lições que traz a literatura russa é que é sempre perigoso falar em generalidades. Seja em termos de “uma literatura” geral, seja em unificar todo um país sob a mesma égide, como se todas as suas partes constituintes se mobilizassem numa ação única.
Mesmo sendo esse o caso, por uma questão simplesmente numérica, será aceitável a figura de linguagem ao dizer-se que os olhos do Brasil miravam atentamente, com uma mistura de esperança e angústia, a terra de Púchkin quando o projeto de Para Ler os Russos nasceu. No calor da copa do mundo de 2018, André Conti, editor da Todavia, sugeriu o projeto da obra, já com o título que viria ser o definitivo, ao tradutor que esperava apenas pescar mais alguma opção, dentro da vastidão de possibilidades do cânone moderno e contemporâneo russo, para uma transcrição. A surpresa, no entanto, rapidamente se tornou um interesse sincero pelo projeto. A partir daí, a respeito de sua experiências, das invenções necessárias para assumir-se de forma autoral um projeto panorâmico como este, das voltas que o fizeram sentir-se como um piloto que, para atravessar um caminho assumidamente conhecido, mas de uma forma nunca antes traçada, “toma lições de voo em pleno ar”, o autor é simples, direto: “Simplesmente cumpri a tarefa que o André me propôs”, diz o tradutor.
Questões de foco
O autor admite, apresentar um retrato dessas gerações brilhantes de autores russos a um público brasileiro exige perpassar uma camada tríplice de ilusão e de interpretação: estudar o lançamento de seus materiais na terra natal (com o sabor típico local, geralmente entre glórias e ameaças de morte), sua recepção por uma cultura estrangeira, e finalmente o acolhimento, a partir dessa incursão dos textos primeiramente pela cultura literária europeia, no país. Esse estudo, um bom tanto desconcertante, se faz presente ao longo da obra; junto com uma progressão temporal de autores e títulos, analisados em seu momento histórico, é possível ler uma linha do tempo da recepção crítica dos clássicos, e de sua tradução e recepção no Brasil.
Com sua forte contextualização histórica do pensamento que envolve a crítica dos autores russos, mas igualmente com sua apresentação simples, despretensiosa, e convidativa, Como Ler os Russos adquire um teor de prosa, uma conversa gostosa e atenta. É um livro que sabe aproveitar as lições dos bons guias de literatura sem se enrijecer, que conserva, nas suas descrições, no seu uso das infindáveis citações e referências, valiosíssimas, que estão disponíveis quanto ao seu assunto, algo da vivacidade e do impacto que está presente em toda boa literatura. A estrutura do livro — que envolve, ao final de cada capítulo, uma seção em foco, realçando aspectos históricos e literários, de acontecimentos e de autores, que complementam o sentido daquilo que foi apresentado — se desenrola naturalmente: é uma obra que é muito bem lida tanto de uma vez, como uma narrativa própria, quanto em doses curtas, talvez com uma referência específica em mente que se queira buscar.
Sobre a composição do livro, diz Irineu que “O conteúdo dita a obra num caso como esse”, e que o ideal perseguido em Como Ler os Russos “é o mesmo que persigo em todas as minhas obras: um livro que seja inteligível para um leitor que não fala uma palavra de russo, e que nunca pôs os pés na Rússia.”, comenta. Uma intenção simples, à primeira vista, mas, apesar de realmente direta e objetiva, enganadora, que necessita de um refinamento muito peculiar, uma operação muito consciente de diversas referências e questões. O idioma russo tem um ritmo, uma cadência particular. Sua incrível densidade linguística, é uma sedimentação lenta de transformações históricas e culturais únicas, de influências externas, muitas vezes consumadas na formas do emprego direto de termos estrangeiros, e tentativas oficiais de conter e amoldar a língua. Lidar com essa matéria bruta e difícil, em alguns sentidos incomunicável, é a tarefa constante do tradutor e, no caso de uma publicação como é esse Como Ler os Russos, explicá-la a quem não a conhece de dentro se torna parte do trabalho de quem mudou, ligeiramente, de função.
Tudo, enfim, resume-se na frase simples, na apresentação direta, naquilo que apresenta, da forma mais verdadeira e acessível, para um leitor brasileiro aquilo que foi escrito. E não poderia ser de outra forma; “[nós], os jornalistas, somos vulgarizadores”, define o jornalista, “e escrevi meu livro pensando em algo acessível para o assim chamado ‘público leigo’”
Profecias
A dimensão única que o escritor, em seu papel, possui para a sociedade russa — como um criador, um desafiante de Deus, um gerador e artista da Palavra —, é um personagem central da análise de Como Ler os Russos. É essa dimensão única que ajuda a explicar o desenvolvimento da cultura dos escritores russos, da época de ouro do século XIX, e ao mesmo tempo é ela também a gênese dos célebres epitáfios do século XX, proferidos sobre esses autores, que se transformaram em frases clássicas — da afirmação do crítico literário Vladislav Khovássevitch que “em nenhum lugar fora da Rússia as pessoas foram tão longe, por quaisquer meios possíveis, para destruir seus escritores” ao célebre dito de Óssip Mandelstam que “em nenhum lugar no mundo se dá tanta importância à poesia: é somente em nosso país que se fuzila por conta de um verso”.
Esse respeito, esse direito único, recai sobre os grandes nomes da literatura russa simultaneamente como uma benção e uma condenação. Como Ler os Russos narra excepcionalmente bem a transformação dessa figura, que acompanhou todos os célebres nomes, reconhecidos, da literatura da terra Alguns, como Gógol, a assumiram quase que à sua própria revelia, enquanto Tolstói e Dostoiévski cumpriram muito bem o papel, extrapolando sua criação literária em um debate que incorporava todo um sistema metafísico. No período soviético, os autores do século XX, posteriores à geração de prata dos futuristas, viveram essa atribuição com um sentido único — incorporando, em muitos casos, em seu destino a consumação dos epítetos célebres.
Como diz a carta de apresentação da obra, em seu prefácio, se é possível perguntar “Como ler os russos?” é porque a pergunta “Por que ler os russos?” já está, mesmo que implicitamente, respondida para o público brasileiro. Muito disso tem a ver com essa palavra, com essa força única que a Rússia atribui a seus escritores. Citando Eric Auerbach, o prefácio do livro fala a respeito dessa força imediada que a literatura russa parecia deter quase que exclusivamente no século XIX, essa imediatez dos sentidos e dos instintos, um atravessamento completo pelas experiências. É complicado, periculoso, falar em generalizações, mas de toda forma essa força movente da literatura russa, especialmente surgindo de rompante na cena europeia, evoca a pujança daquele conhecimento que está com quem não é completamente incluído no centro da cultura, nem entre os centros econômicos — quem necessita olhar para si mesmo, e compreender — se entre sua parte civilizada, aceita, e sua parte tida como selvagem e bárbara. É muito simplista querer reduzir o caso de um país ao outro, estabelecer uma falsa equivalência entre os casos, como se essa bastasse completamente. Mas, indubitavelmente, a literatura na Rússia tem a importância da forma de um povo inventar-se a si mesmo, de atribuir-se essas qualidades, e nisso terá muito a ver com o Brasil e com seus autores.
Presente e futuro.
Como Ler Os Russos termina com um panorama de uma geração contemporânea — os primeiros “pós-soviéticos”, ou pelo menos, o primeiro grupo de autores que atingiu o reconhecimento internacional de sua obra depois da dissolução da União Soviética, mesmo que muitos dos incluídos sob essa categoria já escrevessem durante o período soviético, e que suas obras toquem em temas e traumas fundamentais à velha URSS.
“A consagração dessa nova geração de autores mostra que a literatura russa não precisa de censura e nem de Gulag para produzir obras relevantes”, diz Irineu, se referindo à trupe internacionalmente consagrada que envolve Svetlana Aleksiévich, consagrada com o Nobel em 2015, Liumdilla Petruchvskáia e Vladimir Sorókin. Essa definição, embora com justo caráter de celebração, antecipa as encruzilhadas de quem escreve na Rússia contemporânea. As contradições da censura, até mesmo como forma de alimentar a criatividade, de lapidar o uso da metáfora e da sutileza, desde sempre foram matéria presente para autores russos e soviéticos, mas em tempos atuais, mesmo que certos materiais e temas ainda amarguem uma repressão estatal firme, os que buscam se lançar à arena dos profetas públicos desfrutam, nas palavras de Irineu, de “uma liberdade de expressão inaudita na história dos escritores russos”.
Ocorre hoje, e esse é um diagnóstico apontado em Como Ler os Russos, que os escritores estão submetidos mais aos desmandos do mercado, à busca por publicação e divulgação, aos incessantismos de uma economia frenética, do que à repressão estatal, que se concentra com muito mais força em outras mídias — na TV, na internet, e em outros veículos que, para citar o escritor Ievguêni Dobrenko, “concentram as funções de propaganda e luta política”. A Palavra desafiadora, então deslocou-se, repartiu-se em veículos mais velozes, imediatos e menos reflexivos. O que terá restado então, à palavra simples, comum, meio gasta dos escritores?
Em nossa entrevista, Irineu faz bem ao lembra que já se vão trinta anos nos quais os escritores russos têm de submeter seu conteúdo a essas regras de mercadoria, e que as novas reflexões e formas de enfrentar essas barreiras criativas estão em constante mudança, sempre sendo experimentadas. Tudo que se diga aqui é apenas uma pressuposição desatualizada frente à realidade, mas ainda assim será valioso para ilustrar um pouco o desafio contemporâneo na russa, a autoras e autores que se dispõem a reinterpretar trezentos anos de uma história luminosa, e combinar isso com sua força autoral.
Indagado, então, pelo entrevistador sobre o destino possível desses escritores presentes, sobre que saídas ainda restariam abertas a essa geração que agora escreve, o autor rebate com a realidade mais óbvia: não é quem está de quarentena, isolado em casa em terras paulistanas e sem vacina que poderá vaticinar sobre quem, além de três séculos de referências excepcionais, tem a segurança da Sputnik-V já próxima de seu sistema imune. Não cabe fazer adivinhações, e, afinal, isso não é de forma alguma um problema. Como Ler os Russos é uma obra que, retomando o passado, aponta possibilidades para o futuro- ou ao menos espalha centelhas que podem lhe inspirar. À pergunta Por que ler os russos, feita num acesso de clichê pelo repórter que aqui vos escreve, reage o tradutor: “minha resposta mais sincera é: porque é muito bom!”. E seu livro, é uma obra que ajuda a compreender a dimensão de tudo aquilo que está envolvido para chegar nessa resposta sincera.

Irineu Franco Perpétuo
Editora Todavia
Ano da edição 2021
R$ 69,90/ 44,90
304 páginas