Os Corpos | Rodrigo Magalhães
Na sinopse da contracapa somos informados que o corpo de um homem não identificado foi encontrado numa praia australiana, se a zona de conforto do leitor são os policiais de estrutura linear, desengane-se: essa não é a proposta de Rodrigo Magalhães. Não encontrará aqui um protagonista a decifrar enigmas ou a resolver mistérios. Afinal, o que é um enredo se não essa constante errância pelas dúvidas que assaltam a nossa vida.
Estamos na presença de uma escrita atenta à mecânica dos gestos, de diálogos secos e certeiros, num registo que oscila entre a primeira e a terceira pessoa, aproximando e afastando o olhar do leitor sobre a ação. O recurso ao “ele” e ao “ela” para designar os personagens: Conte, diz ela. Estávamos em Erasmus, começa ele. E um lado experimental que não seria de esperar numa segunda obra. Talvez seja esse o papel da literatura, a de ser um corpo estranho induzindo inquietude no leitor.
A observação matinal, tão exata à claridade nova, sempre me aborreceu. Prefiro o entardecer, as zonas de sombra, onde a decifração é mais necessária.