21/10/2010

Terminei.

Caminhando com o meu irmão pelas belas ruas de Aracaju pude comprovar como a sua sincera arrogância em relação à sua beleza, mais a sua irrefutável convicção de que TODAS as mulheres olham para ele “de maneira verdadeiramente indecente” é mais do que acertada. Em um desses belos dias, dessa vez num ônibus, perguntei ao “irresistível”: Sério mesmo, você exala algum cheiro do acasalamento? Sei lá, olha aquela menina ali, parece que vai ter orgasmos múltiplos só por estar olhando para você (mais ou menos isso). Enquanto me contentava com o seu silêncio, eu pensei: “Deve ser qualquer coisa de animal que me faltou ao nascer(E alegro-me por isso ter sucedido: se houvesse mais gente como eu, o mundo, na minha opinião, seria muito melhor).

As duas frases em itálico se encaixaram perfeitamente ao parágrafo inicial porque a “situação” e a personagem principal pensa semelhante (eu disse semelhante) àquele que escreve esse texto. Identifico-me com Frederick Clegg e a sua estranha maneira de demonstrar seu amor pelo seu objeto de desejo – mais a sua total dificuldade em agir naturalmente frente ao sexo oposto. Clegg é estranho (outra categoria com a qual estou me acostumando), logo, mas nem sempre, incompreendido (o que facilitou e facilita a minha identificação com qualquer personagem e autor).

As citações foram retiradas da página número nove do O Colecionador (1963), de John Fowles. Na trama, um inexpressivo funcionário público viciado em capturar e colecionar borboletas decide, após ganhar um prêmio na loteria, seqüestrar, e manter prisioneira, uma bela jovem de nome Miranda, pela qual está incompreensivelmente apaixonado, que, segundo ele, acabará cedendo e convencendo-se de que a sua violenta e irracional atitude é prova do seu sincero e trágico amor.

Estamos diante de uma personagem doente (eu não sou doente, espero). Diante de uma figura que se humilha por um “amor” que não será correspondido. Diante de alguém que deseja somente (pasmem) ficar a maior parte do tempo próximo da criatura amada, Miranda. Esta, por sua vez, ao mesmo tempo em que planeja as suas fugas, desenvolve uma reflexão sobre o próprio Frederick, percebendo nele um enigma que resiste à decifração.

Da mesma forma que Frederick, o que admiro não é a “coisa” – objeto de desejo = Miranda -, mas a sua motivação. Não me identifico, por exemplo, com Raskólnikov, mas com o seu drama interno e sua decisão – por ele justificada – de matar a velha usurária em Crime e Castigo. Não me interessa o Walter Bidlake e sua “tara” por Lucy Tantamount, em Contraponto, mas porque ele “queria contra a razão, contra todos os seus ideais e princípios, loucamente, contra os seus próprios desejos, mesmo contra os seus próprios sentimentos – porque ele não gostava de Lucy; na verdade, odiava-a” (p.13). Desvencilhar a personagem da motivação parece ser algo impossível, mas penso esse problema semelhante àquele tipo de leitor (eu, por exemplo) que pouco está ligando para a bibliografia do autor, mas somente para aquilo por ele escrito.

Vejo-me um pouco nas angústias de Frederick Clegg. E se não me vejo inteiramente nele (graças), no mínimo procuro compreendê-lo. Pois, se para muitos essas motivações são condenáveis, para mim é impossível qualquer tipo de veredicto. “Como condenar o que é efêmero? As nuvens alaranjadas do crepúsculo douram todas as coisas com o encanto da nostalgia; até mesmo a guilhotina” (p.10), escreveu o narrador em A insustentável leveza do ser. Um fim nobre pode justificar meios vergonhosos? Mas quando se trata realmente dum fim vergonhoso?…