21

Jun24

Maria do Rosário Pedreira

Estaquei o passo ao me deparar com a porta do nosso apar­tamento entreaberta. Um nó apertou meu estômago. Quando estava bêbada, Andrea vivia fazendo esse tipo de coisa, esque­cer as portas abertas, deixar o controle remoto da televisão dentro da geladeira, perder as chaves. Naquele momento o ar ao meu redor parecia denso de emanações estranhas. Sem saber o que fazer, permaneci por alguns instantes em pé no corredor, tentando descobrir o que provocava aquele pres­sentimento ruim. Do lado de dentro, a sensação de estranheza persistia: as luzes de quase todos os cômodos estavam acesas e uma voz masculina ecoava do quarto de Andrea. Havia alguém ali com minha mãe?

Abandonada no chão da sala, encontrei com uma pequena toalha branca manchada de sangue. O vermelho intenso, quase negro, parecia obsceno e revelador. O que havia acon­tecido?, eu me perguntei mais uma vez, o coração batendo acelerado dentro do peito. Minha mãe estava ferida? Por que todas as luzes do apartamento estavam ligadas? Quem era o sujeito que se encontrava em seu quarto? O cheiro ferroso que preenchia a sala me repelia e atraía em igual medida.

Incapaz de desviar os olhos da toalha ensanguentada, pres­senti que aquela temporada feliz ao lado de Benjamim havia chegado ao fim.

Victor Vidal, Não Há Pássaros Aqui, Prémio LeYa 2023