| Fotografia da minha autoria |
Tema 34: Baleia + Autocarro + Bola
A Baleia perguntou ao tempo se lhe dava boleia para o Largo da Alegria. Mas o tempo, sempre apressado, nem a ouviu, de tão distraído que ia para chegar a horas ao destino - já de si impaciente para esperas longas.
Conformado, o animal seguiu caminho até à paragem de autocarro. Ao longe, pareceu-lhe deserta, mas, à medida que se ia aproximando, reparou numa figura com expressões ausentes. Cumprimentou-a com o seu canto de sereia adormecida e recebeu a subtil melodia do silêncio. Esteve quase a insistir na saudação, quando, ao olhar novamente, o espaço estava vazio. «Estou a alucinar», pensou. Mas, por descargo de consciência, foi espreitando, uma e outra vez, para confirmar que estava sozinho. E estava. Portanto, desistiu.
Um quarto de hora mais tarde, sem sinal do 205, a Baleia Bell começava a ficar aborrecida. Estava uma bela manhã de domingo, mas nada parecia correr de feição. Distraída em pensamentos, despertou com um grito.
- Cuidado com a bola!
Bell desviou-se a tempo. Mas não havia bola, nem dono para aquela voz. Um pouco confusa - e, verdade seja dita, receosa -, achou que talvez fosse melhor ir a pé, não fosse dar-se o caso de começar a falar sozinha, em protesto por todas estas peripécias. Dois passos mais à frente, ia jurar que alguém lhe pedia para esperar.
- Estou a enlouquecer, só pode! - desabafou.
- Talvez...
- Chega! Mas que és tu, afinal?
No quarto, ecoava o som do despertador. E Madalena acordou em sobressalto.
- Que sonho atribulado!
Levantou-se da cama. E, assim que enfiou a cabeça no armário, o autocarro de madeira, a baleia de peluche e a bola de basquetebol reposicionaram-se nas prateleiras, sem que a menina desse pela falta deles.