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| Fotografia da minha autoria |
«Carregamos connosco todas as nossas versões»
A minha personalidade introvertida faz-me recuar em muitos planos e nunca é a melhor conselheira, quando existe a possibilidade de estruturar programas a solo - sobretudo, se implicarem estar no meio de uma multidão ou num grupo onde não esteja tão à vontade -, porque a resposta imediata seria não ir, não fazer.
Não tenho um método de ação infalível e, honestamente, acho que oscilarei sempre entre a vontade e a hesitação, mas algo que me tem ajudado é pensar naquilo que posso perder, caso opte pela aparente desistência, caso permita que a insegurança leve a melhor.
os momentos de hesitação
Há eventos que faço questão de ir acompanhada: pela partilha que potenciam, por saber que fazem sentido para os envolvidos e pelas próprias memórias que perdurarão no tempo - e que serão mais um elemento de ligação. Mas e quando não temos quem nos queira acompanhar? Será que a solução será mesmo não ir?
Um dos meus maiores propósitos, nos últimos dois anos talvez seja mais notório, tem sido traçar programas sozinha, não só por achar importante esta dinâmica, mas também para que nunca deixe de fazer algo que me interessa por não ter quem vá comigo. E senti que começar por coisas mais pequenas, como sessões de escrita ou passeios para fotografar, por exemplo, foi uma excelente estratégia, porque trouxe confiança.
Em 2015, quando o Diogo Piçarra lançou o seu primeiro álbum, o Espelho, um dos concertos de apresentação foi no Hard Club, no Porto. E se, por um lado, não tinha dúvidas que queria ir, por outro, fui tendo alguns estímulos que me fizeram oscilar. Mas fui, não tinha como não ir - hoje, percebo-o ainda melhor. Curiosamente, avançando para 2024, foi no dia em que estava a comprar um bilhete para a Tour SNTMNTL que voltei a refletir sobre aquilo que deixamos de viver por não querermos/não sermos capazes de ir sozinhos.
o desconforto de ir, o receio de perder
No Super Bock Arena, já no final do concerto, enquanto me organizava emocionalmente, dei por mim a pensar: estou mesmo feliz por ter vindo. Não só pelo motivo óbvio de ver o Diogo ao vivo, mas também pelo ambiente extraordinário e por todas as recordações que não seriam possíveis de criar se ficasse em casa. Eu sei que, lá no fundo, a não ser que existisse um motivo muito forte que me impedisse de estar, teria de pesar mais a vontade de ir. Todavia, é um aconchego diferente perceber que não permiti que as inseguranças tivessem voz.
Se não tivesse ido, também não teria uma perceção plena do momento, estou consciente dessa particularidade, mas teria sempre uma ideia ou, pior, acabaria por construir uma narrativa de sucessivas hipóteses, que nunca confirmaria, o que faria mossa. Mesmo que não seja de um modo constante ou consciente, aquilo que não experienciamos também nos pesa. Portanto, como não estava disposta a abdicar de fazer parte de uma data tão especial, que não se repetirá, não deixei que imperasse o vazio.
O desconforto de ir é evidente e chega a tornar-se quase palpável, porque acreditamos que os outros reparam em todos os nossos movimentos e que nos julgam de alguma forma. Mas nada disso é bem verdade, porque as pessoas estão na sua bolha, a desfrutar da ocasião pela sua perspetiva. E se o desconforto se sente, o receio de perder também. Claro que há situações extremas, paralisantes, que podem levar a que alguém não consiga dar esse passo e isso não pode ser ignorado. Tem, sobretudo, de ser respeitado ao máximo, atendendo a que ninguém tem de se sentir mal por algo que não controla. No entanto, uma vez que não é nesse lado que me enquadro, foco-me nesta travessia que me dá autonomia e me permite comandar o medo.
Percebi, acima de tudo, que isto nunca será um assunto encerrado, que terei sempre de lutar contra alguns fantasmas e pensamentos intrusivos. Ainda assim, também compreendi uma coisa sobre mim: não me importo que o desconforto de ir esteja presente, à espreita, desde que saiba que há perdas que não pretendo abraçar.
