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| Fotografia da minha autoria |
«Todos os temas abordados no espetáculo são distorcidos para serem, na verdade, melhor compreendidos»
A vida tem traços curiosos, que nos surpreendem e que, no fundo, nos desarmam - um pouco, também, por envolverem sonhos antigos. Quando Luís Franco-Bastos anunciou o seu novo solo de Stand-Up Comedy, soube que não podia [voltar a] perder a oportunidade de ver um dos humoristas que mais admiro ao vivo. Por isso, apressei-me a adquirir os bilhetes. Só não estava à espera de assistir a duas das três datas marcadas no Porto. E que enorme privilégio!
Consciente marca a etapa matura em que se encontra. E, tal como o próprio menciona, «apesar de poder dizer o que [lhe] apetecer, [quer] fazê-lo consciente de que nos podemos rir das coisas para pensarmos melhor nelas». Embora o primeiro grande objetivo da comédia seja despertar o riso no público, este lado cívico e reflexivo é de extrema relevância, até porque nunca me cansarei de defender que o humor é uma arma para expor problemáticas e quebrar preconceitos. O artista pode nem pretender assumir essa luta, no entanto, conforta compreender que não se coíbe de trazer para a discussão temas urgentes. A grande diferença e que procura fazê-lo com graça e através da sátira.
O humor de Luís Franco-Bastos tem tanto de inteligente, como de descomplicado. Há muita naturalidade na forma como se expõe e como partilha os seus pontos de vista. E consegue envolver-nos no seu registo tão familiar: por já ter um percurso sólido na comédia. E pela verdade com que se apresenta em cada projeto, sem qualquer vedetismo. Com um cunho mais ou menos íntimo, dependendo se parte de experiências vividas na primeira pessoa ou se cria uma linha com margem para a ficção, o certo é que existe versatilidade e carisma. E é inegável que é um contador de histórias soberbo, transportando-nos para os acontecimentos descritos, como se lhes pertencêssemos. Além disso, tem o dom de fazer parecer que é fácil, quando tudo o que faz requer competência, trabalho, talento, pesquisa e muito compromisso. E o palco do Sá da Bandeira foi pequeno para tanta mestria.
O espetáculo contou, em primeiro lugar, com um Opening Act. Pessoalmente, acredito que esta dinâmica é um ato de generosidade, porque permite valorizar comediantes cuja exposição ainda não é tão significativa para a maioria do público. Em simultâneo, revela-se um voto de confiança. E é a ocasião perfeita para contactarmos com outros humoristas. Esta abertura ficou, então, à responsabilidade de Hugo Subtil. Apesar de não ser um nome estranho, não tinha qualquer referência prévia. E fui surpreendida em pleno. Denotando-lhe uma certa vulnerabilidade [intencional ou não], foi simples relacionar-me com o seu texto, porque tem qualidade e potencial. E não houve piadas forçadas. Foi, sem qualquer desmérito para a sua atuação, um excelente ponto de partida para o momento seguinte - e o mais aguardado.
Luís Franco-Bastos foi, naturalmente, a estrela da noite. E por inúmeros aspetos. Houve espaço para pensar, para descomprimir, para viajar e para ser. Cada pensamento era desconstruído e, até, distorcido por um propósito maior. E como foi bom ouvir a sala em sucessivas gargalhadas e aplausos. A segurança na partilha e na abordagem dos mais diversos temas, aliando-se ao tom irónico, tornou o discurso fluído, cativante e com transições assertivas. E não posso deixar de destacar a surrealidade das suas imitações, quer de vozes mais genéricas, quer de vozes pertencentes a personalidades conhecidas. Se escutá-las na rádio ou na televisão já é impressionante, ao vivo é de arrepiar, de tão perfeito que soa. E é também por esta característica que se destaca, colocando-se num patamar superior. Ainda assim, é de louvar que não se limite a um único atributo, reinventando-se na interpretação e no conteúdo, nunca esquecendo a sua base, o Stand-Up, mas vincando a sua identidade. E assim construiu um solo plural, bem à sua imagem.
Sinto que estar presente em duas noites [sexta e sábado], ciente de que assistiria ao mesmo material, foi um teste de fogo. Porém, revelou-se uma experiência duplamente incrível. Porque, por muito que procurem incutir o contrário, não há espetáculos iguais: seja pela nossa predisposição, seja pela alteração de algumas falas ou, inclusive, pela própria energia da plateia. E, no sábado, embora fosse capaz de antever o segmento seguinte, foi como se o escutasse pela primeira vez. Nada perdeu encanto. Muito pelo contrário! Consciente superou todas as minhas expectativas. E contribuiu para reforçar a certeza de que Luís Franco-Bastos transborda talento - e de que é absolutamente genial. Obrigada por esta obra de arte ♥
