No fundo, não estamos tão longe assim do barro. Somente a pele nos separa da verdade, e mesmo ela se desfaz em constante poeira, como se não fosse capaz de conter esta natureza instável, formada por terra e por água misturados. É apropriado que a escultura tenha sido feita de argila. O mármore é enganoso, mostra uma limpeza que não existe. O granito esfarela; a pedra-sabão é delicada demais. Os minérios não tem coragem de serem sinceros, preferem a ilusão. Mas o barro não tem nada a perder, pois é diariamente pisoteado. Ele não precisa mentir. Na imagem, Adão e Eva acabaram de encontrar o corpo de Abel, o rosto esmagado pela pedra. Pai e mãe pranteiam o filho assassinado. Adão volta o rosto contorcido para o céu, esperando talvez uma intervenção divina ou uma explicação. Ele ainda não sabe, mas perdeu dois filhos, pois o outro é o homicida, agora em eterna fuga de si mesmo. Mais pragmática, Eva enlaça o filho e deixa o desespero se adonar de seu corpo. É a primeira Pietá; sempre que existirem filhos, existirão mães chorando. Antonio Canova, Compianto di Abele, 1818 É natural que, após alguns anos de vida, tenhamos visto pessoas em diferentes estágios de desespero. De todos os sentimentos humanos, este é o mais universal. Quem nunca olhou para os céus atrás de uma explicação? Quem nunca se entregou à angústia e ao medo? No entanto, o que observei é que o barro nos irmana. O desespero faz as pessoas perderem seus limites; elas parecem se liquefazer, como se perdessem a concretude, como se estivessem debaixo de uma cachoeira que leva consigo a estrutura tão cuidadosamente construída. Talvez seja timidez minha, mas nãomconsigo lembrar o rosto de alguém em desespero, não sei qual é a cara que ele tem. Conheço pessoas que viveram sem amor, sem sentir medo, sem ter esperança. O que eu não conheço é alguém imune ao desespero de se saber impotente diante de alguma situação. Pois o desespero genuíno é isto: não ter alternativa, a não ser atravessar um deserto de fogo sem nenhum conforto ou gesto piedoso. E tantas pessoas falam tanto e escrevem manuais de como encontrar a felicidade, o amor, o sentido da vida, e ninguém fala a grande verdade: preparem-se para o desespero, que logo ele baterá na porta e não pedirá licença para entrar. Vai se apossar da sua vida e mudá-la por completo, a ponto de você dividi-la em dois períodos, antes da sua chegada e depois. É enganoso imaginar que podemos manobrar o barro à nossa vontade. É ele quem nos controla, é ele quem determina a quantidade de dor que podemos suportar. o barro toma a forma que você quiservocê nem sabe estar fazendo apenas o que o barro quer (Paulo Leminski) Não mantenham ilusões; é questão de tempo até o seu barro verter água e se esmaecer no desespero. É o último ritual de passagem que temos antes da morte – sentirmos o desespero preencher cada célula, cada mínima partícula de barro. É bom estar preparado. Publicado por Gustavo Advogado, escritor e mestre em Letras - mas não nesta ordem. Autor de "O homem despedaçado", livro de contos lançado pela Dublinense em 2011. Ver todos os posts de Gustavo