Eu moro em uma cidade do interior.
A maior parte da cidade vive de verbas públicas, claro. Afinal, é uma cidade pequena! Porém, há uma força produtiva relevante e evidentemente que ela é majoritariamente agrária. Há uma produção relativamente importante de legumes e hortaliças.
Certo dia, conversando com um colega filho de um dos grandes produtores, descobri que eles só podiam vender pra determinados atravessadores. Ingênuo, ainda perguntei porque não tentar a venda direta. Ele riu e eu fiquei em choque.
Há uma rede de influência que reduz todo o mercado a pouquíssimos agentes. Dificuldades estatais e burocráticas, altos impostos e até mesmo a recusa dos comerciantes em negociar com novos entrantes ajudam a construir um cenário que assustaria até um senhor feudal.
Este foi um evento importante da minha formação, pois ajudou a desmontar o jovem idealista e a calejar minha percepção da realidade.
Tempos depois, um Rodrigo já acostumado a pagar caríssimo em óculos, descobriu que existe um esquema parecido neste mercado. Uma oligopólio que força todos os preços pra cima e impede que consumidores tenham acesso a produtos baratos. Eu confesso que estranhava muito óculos no camelô custarem baratíssimo enquanto óculos na ótica são absurdamente caros.
Liguei legumes a lentes. Um segundo passo no meu nesse processo de “calejamento”. No Brasil, aparentemente, temos um cenário maravilhoso em que amigos dos poderosos conseguem tecer teias longuíssimas e igualmente resistentes e que impedem o acesso da população a bens por um preço competitivo enquanto mantém o enriquecimento daqueles que “chegaram primeiro”.
Raymundo Faoro publicou um trabalho que considero seminal para entendermos o funcionamento da máquina brasileira. “Os donos do poder” é um daqueles livros cabeçudos, de linguagem cansativa, difícil, mas capaz de clarear as ideias de encantados e desiludidos. Ele chamou as relações de compadrio que assolam nossa terra de “patronato”. Aqui, vale muito mais “conhecer alguém” até do que ter dinheiro.
Na terra Brasilis, não importa o quanto você tenha dinheiro. Por vezes, não é possível nem mesmo “comprar” ou “pagar” por um serviço ou produto. E nem estou falando de “escassez” e “demanda”. A máquina brasileira constrói elementos que impedem o trânsito daqueles que não entram na dança patronal.
Quer outro exemplo? Os livros que tanto amo!
Quando a Amazon chegou ao país foi um choro sem fim.
Claro! A multinacional chegou desmontando todo o esquema estabelecido durante tantos e tantos anos. Nunca esqueço do que me contou uma colega ex-funcionária de uma grande rede de livros – na época a única grande rede do país. Dizia ela que o dono falava abertamente: “nossos clientes não precisam de promoções”.
Muitos podem ainda argumentar que a própria existência da Amazon e do que ela causou no mercado pode ser uma prova contra essa tese do patronato absoluto. O engano é achar que ele é _absoluto_. Ele existe, é forte, mas alguns agentes podem ter capacidade de forçar essa barreira de uma forma significativa. Claro que existem ainda outros acordos e “jeitinhos” que fazem parte desta equação e que nós nunca saberemos completamente. Aliás, o que vemos é a superfície, a movimentação dos agentes políticos tentando cortar as asas da gigante americana. Sempre, evidentemente, pelo bem do “brasileirinho”.
Após pensarmos sobre legumes, óculos e livros, pense por dois segundos. Se tudo isso acontece com esses mercados porque devemos achar que a educação está tranquila? Intocada diante desse jogo de poder e interesses que constitui nosso DNA?
Eu sei que a educação fala com nosso coração, que enche nossos olhos e tendemos a recusar o reconhecimento de um provável lobby. E eu nem estou falando do ensino particular. Embora o ensino superior já tenha sido franquiado há algumas boas décadas. Afinal, o que é nosso programa de bolsas em universidades particulares se não um sofisticado esquema de voucher que não se assume voucher? É o voucher envergonhado, o voucher dentro do armário.
No entanto, nem falo disso. Falo, na verdade, do ensino básico mesmo. Olhem em volta e percebam todos os agentes relacionados ao ensino básico neste nosso país.
Nós até procuramos e entendemos os problemas ideológicos e metodológicos que envolvem nosso fracasso. Eles existem, não os estou negando. Importa, porém, entender que não são eles os únicos motores na nossa eterna marcha ré.
Queria eu voltar a ter a inocência da juventude. Por vezes, acho que o esclarecimento embranquece cabelos e entope artérias. Perigosíssimo!
Por hoje é isso.
Um abraço e que Nosso Senhor nos abençoe!