Escritor retratou cotidiano de personagens transgressores durante ascensão do nazismo
Matheus Lopes Quirino
Christopher Isherwood foi um dos grandes escritores gays do século XX. Autor de obras antológicas, como O Memorial, de 1937, e Adeus a Berlim, de 1939, que inspirou o Cabaret de Bob Fosse, filme estrelado por Liza Minelli como Sally Bowles, Isherwood não se acovardou, mesmo sob o peso da pena numa época de regimes autoritários – o autor viu de perto a ascensão do nazismo. Abertamente homossexual, Christopher é contemporâneo de uma boa safra de escritores ingleses libertários, como W.H Auden e Stephen Spender (que namorou o pintor Lucien Freud).
Autor de prosa cristalina, Isherwood discorreu sobre a queda de um paraíso perdido que era a República de Weimar, como seu contemporâneo Spender, em seu Magnum Opus O Templo, recentemente reeditado pela editora 34. Nascido em 1904, o poeta completaria 100 anos em 2024, mas ele morreu em 1986.
Escritor multiplataforma, tendo inspirado releituras em séries, peças e filmes, mesmo no exterior, onde suas obras têm boa procura, pouco se discorre sobre a figura do autor no Brasil – ao menos comercialmente. Com efemérides passadas em branco, os livros do escritor só foram editados na década de 1980 no País, Adeus a Berlim e Um Homem Só, que integraram o selo Circo de Letras, os dois foram adaptados para o cinema e teatro, além de Cabaret, Um Homem Só foi levado às telas por Tom Ford, em A Single Man, traduzido para o português como Direito de Amar.
Tendo atravessado oito décadas de seu lançamento, Adeus a Berlim foi fonte que Bob Fosse recorreu para projetar em Minelli o sex-symbol que ela se tornou. Até então tida como “a filha de Judy Garland”, Liza Minelli roubou a cena e Michael York ficou ofuscado pela arrojada dançarina de cabaré. O papel lhe rendeu um Oscar de melhor atriz em 1973. No livro de Isherwood, fica cravado o espírito cosmopolita da Berlim sacudida pela permissividade, transgressão, mas também pelo medo.
A bem da verdade, o medo é um pilar na obra do autor. Ele está representado na figura do nazista, mas também no pavor do conservadorismo sobre questões de gênero; Sobretudo a partir amor, Isherwood conduz seus protagonistas a zonas de desconforto, principalmente quando uma delas é um alter ego seu, um inglesinho tímido, intelectual, curioso, de calças de brim.
Tendo embolsado o Oscar de melhor ator pelo Discurso do Rei, o britânico Colin Firth interpretou uma icônica personagem de Isherwood, o professor de literatura George Falconer, cujo filme estreou no Brasil há uma década, e também segue esquecido. No púlpito com seus alunos, ao falar sobre Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley, Falconer discursa sobre o medo, metaforizando sobre a pressão de conduta contra os homossexuais e criticando também a crise dos mísseis.
Em A Single Man, Isherwood retrata este homem impávido, “extremamente inglês” (certinho, quase frígido), que sofre em silêncio a perda de seu companheiro em um acidente de carro. Na trama, George Falconer duela contra uma depressão e pensa várias vezes em puxar o gatilho contra si. Nos momentos de lucidez, as personagens arquitetadas por Isherwood ganham o vigor em cena ao interagir com o professor. Atores como Julianne Moore e o espanhol Jon Kortajarena contracenam com Firth e fazem jus ao legado do escritor britânico. Ford, que se consagrou como uma das vozes homossexuais mais expressivas do mundo, é um leitor assumido de Isherwood e considera as palavras do escritor indeléveis.
Esgotados, livros de Christopher Isherwood podem ser encontrados no site Estante Virtual a preços salgados. Um exemplar de Adeus a Berlim, por exemplo, chega a custar R$ 189,00. Sem previsão para reedição no Brasil, exemplares em inglês em sebos e mercados de pulgas também são raros – e caros mesmo nos mercados clandestinos. O leitor que chegou a Isherwood não é de se desfazer fácil dele. Fica impressa uma marca fabulosa, inquietante, devidamente reconhecida com um lugar cativo em uma prateleira de primeira ordem.
Christopher Isherwood e seu companheiro, o pintor Don Bachardy
Publicado por Matheus Lopes Quirino
Jornalista, foi repórter e editor-assistente do caderno Aliás do jornal O Estado de S. Paulo. Escreve sobre livros, artes visuais e cultura. Ver todos os posts de Matheus Lopes Quirino