Fotografia da minha autoria

«Se é no lar que o coração se forma, então, é à mesa 

que ele se conecta»

Silêncio. É nesta acalmia que me levanto. A casa está vazia e os horários em desencontro. Há um hiato gigantesco entre a minha presença e a convivência com o meu núcleo familiar, fruto das respetivas responsabilidades. Por vezes, sinto-me em falência, a questionar se as palavras e os afetos da noite anterior não foram uma mera partida da minha imaginação. Porque em cada nova manhã acordo sozinho.

O tempo arrasta-se, caótico. Implicando-me em várias vertentes, obrigando-me a assumir posturas diferenciadas e adequadas aos contextos em que me movo. E sem dar conta, porque sou consumido pela azáfama de compromissos inesgotáveis, carrego as saudades e a urgência de regressar à minha fortaleza. À sensação de pé descalço. E ao conforto do sofá onde somos quatro corações em alvoroço, alheados da realidade que deixamos à porta. No entanto, ainda me espera um dia longo. Aborrecido. E frenético. Há muito mundo e partilha ao meu redor, mas nada me faz sentir pleno. Sou muito grato pelas minhas conquistas e pelo privilégio de estar num emprego de sonho, mas falta-me mais espaço de casa. É aí que me reconheço por inteiro.

Embora existam imprevistos, planos em separado e alturas em que a paciência se esgota com facilidade, mantemos uma regra de ouro: encontarmo-nos no nosso ponto favorito - a sala -, à hora do jantar. Sentados à mesa, por entre pratos, panelas e comida deliciosa, as conversas multiplicam-se. E quase nos atropelamos nas novidades. Nem sempre são muitas [para ser honesto, há dias em que são inexistentes], contudo, não descuramos a comunicação e o cuidado de saber do outro. Focados no momento, ouvimos as ambições, as angústias e os disparates. Trocam-se opiniões e conselhos sábios. E sei que somos a personificação de uma verdadeira união. Certo dia, disseram-me que há poucas coisas na vida que nos façam tão bem como estar à mesa com os nossos, saboreando uma refeição preparada com todo o carinho. Demorei a senti-lo. Mas, hoje, compreendo que não existe afirmação mais pura.

O relógio está prestes a anunciar o recolher. O descanso. E os abraços beijoqueiros com desejos de uma noite tranquila. Ainda assim, recosto-me na cadeira a absorver os minutos que me restam. É esta paz que me transcende. E mesmo que amanhã regresse a rotina, mesmo que as circunstâncias possam descambar, hei-de voltar a esta bolha de energia. Porque tudo é passageiro, menos este nosso amor.