Por José Leonardo Ribeiro Nascimento

Trabalhadora voraz, funcionária exemplar. Não se engana, não se atrasa, sua eficiência não tem igual. Quantas vezes, porém, seus serviços são desejados? Tantas e tantas vezes seu trabalho acaba com festas, destrói corações, aniquila planos!

És veterana, não devias cometer enganos. És imparcial, não proferes julgamentos. Mas como parece injusto e errado que apareças exatamente quando deveria haver somente alegria! Ou quando chamas quem nem ainda te compreende.

Sei que não és cruel. Tampouco tens compaixão. Mas me pergunto se teu coração se aperta (se é que tens coração) quando tua vítima vai esvaecendo, lenta e dolorosamente, infante faminta, inocente e desgraçada. Pergunto-me também se não te comprazes minimamente ao ver o cruel, que tantos serviços teus requisitou, cair levianamente em tuas garras.

E por falar em quem te ajuda, são tão variados os teus assistentes. Alguns pensaram e calcularam em que momento iriam chamar-te, condenando seus semelhantes, algumas vezes culpados, outras inocentes; outros desdenharam de ti, misturando irresponsabilidade, velocidade e aquele ingrediente que tanto tem te ajudado, entorpecendo o raciocínio e ajudando a aumentar ainda mais os teus já volumosos números.

Quem mais contribui para esse seu indesejável ofício, arrisco-me a dizer: nem tu conheces. Digo isso porque são tão intricadas as relações, tão complexos os laços, que repartir as responsabilidades é tarefa quase impossível. Quem saberá quantos tu levaste por conta daquele documento assinado naquela sala fechada? Ou quantos tiveram seus destinos selados (e quantos ainda terão) por causa daquele e-mail, daquele “sim”, daquele “não”, por causa daqueles 2,5% ou para atingir aquela meta?

Seus sócios são muitos.  Há quem pense que todos somos. Um copo d’água que desperdiço é a sede que leva meu vizinho; uma roupa cara que compro é o frio que assola aquele pedinte. Como calcular essa contribuição? É possível dormir tranqüilo pensando assim?

Aproveitando, pergunto-lhe: e tu, dormes tranqüila? Quantas lágrimas tu já provocastes! Não vens sem causar transtorno. Sim, é certo que há casos em que até te chamam de “natural”, e mesmo dizem vires para dar descanso. Mas, minha cara, são poucas essas vezes. Já houve quem escrevesse perguntando onde estavas e sim, acredito que já foste derrotada. Mas como aqui, neste mundo, pareces vencer! Aqui nunca te escondes!

Não se passa um dia sem que mostres teu serviço, e como é doloroso! Como é difícil depois que ages ainda ter que contemplar o teu trabalho, ver o resultado da tua presença, sentir o coração esmagado pelo “nunca mais”, por aquilo que não deu tempo de dizer, de fazer, de corrigir, de consertar.

Neste ponto, reconheço: ensinas. És impiedosa e eficiente pedagoga, mostrando-nos que a efemeridade é a principal característica deste mundo, e que as pessoas valem muito mais do que qualquer coisa que possamos sentir ou ter. Muito da tristeza que aflige os que têm próximos visitados por ti são resultado de terem deixado o sol se por sobre o ressentimento.

Sim, foste vencida, mas aqui ainda estás presente, inexorável, insensível. Se não posso escapar de ti, se não há vacina ou remédio que me proteja ou que proteja os meus, viverei. Viverei e não deixarei que haja motivos para chorar uma culpa. Serei o melhor que eu puder para quem amo. Amarei e permitirei que me amem.

Se vieres, verás lágrimas de saudade. De remorso, jamais. Esta é a oração que faço.