Histórias de qualidade duvidosa disputam com influenciadores aos gritos para vender seu peixe; a literatura morre asfixiada Um livro é comentado por 30 segundos que avançam na velocidade 2.0. Com o exemplar em punhos, um influencer precisa montar toda uma acrobacia para contar uma história, explicar em meias palavras, às vezes menos. E é capaz de quem está do outro lado da tela não ter paciência para a história. Dá deslike, roda para o próximo. É preciso de paciência. Ler é uma experiência que demanda tempo, concentração e um certo ar meditativo. Se desprender dos ruídos e manifestações para mergulhar no universo do livro é, hoje, quase uma experiência transcendental. Luzes, produções arrojadas, hits do momento. Nada parece combinar muito com o universo do livro. O TikTok, plataforma vangloriada nesta Bienal do Livro, é a última pá de cal da apelação. O TikTok se tornou o camelódromo da literatura. Não existe profundidade para se pensar no livro, quanto menos na trama. Porque não há tempo. Sem tempo, sem livro. A conta não fecha. É de péssimo gosto, além de ser cafona. Apostar em histórias água com açúcar que bombam nestas plataformas, colocar este subproduto da indústria cultural como referência para tantos leitores é desvalorizar o zelo e cuidado de profissionais sérios que trabalham em editoras, ridicularizar o tempo de estudo e processo criativo de escrita do livro. É matar o tempo da forma mais cruel: o TikTok soterra a reflexão. Como? Enchendo o leitor de drops sobre livros com opiniões rasas. Massificar um produto cultural é diferente da chamada popularização, algo defendido pelos que querem, a todo custo, vender toneladas de livro. O lucro não deveria importar a todo custo, afinal, a arte deve ter ainda algum valor. Colocar livros em pé de igualdade com virais é minar todo o poder de reflexão que uma obra e um autor podem exercer remotamente. Os livros são, muitas vezes, a porta de entrada para o mundo pensante. É uma forma autônoma de se empoderar, esclarecer, e reunir repertório para lutar contra autoritarismos e questionar nossa sociedade. Erguer tendas, movimentar “debates”, elaborar programações trazem pensamentos clichês é subestimar o leitor. O leitor deve ser encorajado, envolvido e instigado a pensar sobre o mundo. Mitigar a experiência do leitor e mastigar um livro em segundos é assassinar a literatura, colocar sob o mesmo chão dois produtos com datas de validade diferentes é igualar uma obra de arte a um saco de feijão.