Aprendendo um pouco mais sobre o Irão. 

Quando a minha madrinha, há uns meses, me contou que ia fazer uma viagem de duas semanas pelo Irão, cuja cultura a fascinava, apercebi-me que não sabia absolutamente nada sobre o país. Pérsia, Golfo, petróleo, guerras contra o Iraque, insurgências recentes, nada mais. 

De facto, especialmente depois do 11 de Setembro, o Irão e os iranianos são pintados como "os maus da fita" no mundo ocidental. Mas o Irão não é um sítio mau - são as pessoas que lideram o país que o são. Os iranianos, como todos os outros, fazem parte do mundo e, tal como o resto do mundo, querem ouvir música, ter amigos, sair, ir a festas, usar calças de ganga (e não uma burqa). E é isso que aprendemos neste livro, que nos mostra uma experiência, em primeira mão, de como foi crescer no Irão, precisamente na altura em que as coisas começaram a piorar: fundamentalismo religioso, segregação por género, direitos das mulheres cada vez mais reduzidos, ver vizinhos e familiares serem executados por meras suspeitas de espionagem...

Acompanhamos Marjane desde os seus 10 anos até os seus 23. No início, a revolução começa por separar as crianças na escola, rapazes para um lado, raparigas para o outro, e obrigar as mulheres a usar véus.

We didn't really like to wear the veil, especially since we didn't understand why we had to.

Os pais de Marjane, liberais e envolvidos em causas marxistas, vão a vários protestos políticos. O tio Anoosh, que faz cisnes de pão, tinha fugido para a URSS, porque o governo achava que ele seria um espião. Dado este contexto familiar, Marjane acredita no activismo social e quer resolver as desigualdades sociais, os problemas das pessoas - especialmente quando vê que Teerão está a ser bombardeado e os seus amigos estão a morrer.

 

Quando Marjane faz 14 anos, após vários problemas (incluindo ter sido expulsa da escola, por responder mal e por o sistema estar a ficar cada vez mais fechado, e o facto de os seus antigos colegas, rapazes, de 14 anos, estarem a ser recrutados para a guerra), os pais dela decidem que o Irão não é seguro para ela, e decidem mandá-la para Viena, alegando que irão ter com ela mais tarde.

Nothing's worse than saying goodbye. It's a little like dying.

É em Viena que Marjane volta a sentir o contraste de viver num país pacífico vs viver num país destroçado pela guerra. Fica alojada numa casa de freiras, onde partilha casa com uma rapariga. Na escola, faz amizade com Julie, uma rapariga sexualmente liberada, e vários rapazes que ficam fascinados com o facto de ela ter vivido num cenário de guerra. Mais tarde, partilha um apartamento com oito homossexuais e chega a arrendar um quarto de uma mulher com cara de cavalo, até que acaba por ficar sem casa e viver na rua.

É hora de voltar ao Irão, desistir da liberdade que Viena lhe confere - hora de voltar para a família, para o país onde nasceu. Assim, Marjane volta ao Irão aos 18 anos, por vontade própria. Apesar dos choques culturais que sofrera em Viena, da solidão, acaba por aperceber-se que o Irão para o qual voltou não é o mesmo do qual tinha partido - e está cada vez mais distante do Irão onde nascera. As ruas têm agora nomes de "mártires", e as regras sobre o vestuário e maquilhagem das mulheres estão cada vez mais rigorosas.

A quem tiver visto/lido The Handmaid's Tale, de Margaret Atwood, e pensar que é uma distopia inconcebível: Persepolis mostra como é fácil, para uma mulher ocidental, esquecer a realidade que é vivida em países como este, e outros na mesma região, onde regimes religiosos fanáticos tiram todos os direitos às mulheres. Imaginem não poderem escolher com quem saem à rua, ou não poder mostrar os tornozelos.

I have always thought that if women's hair posed so many problems, God would certainly have made us bald.

No Irão, Marjane continua a fazer o activismo social que pode, casa-se, vai a festas, usa maquilhagem às escondidas, divorcia-se - apercebe-se de que é vista como uma estrangeira, que a sua identidade está dividida entre a sua educação francesa, a sua etnia iraniana, os seus anos formativos na Áustria. E é assim que entende que não pode mais ficar no Irão, e, quando volta a partir, sabe que a sua liberdade tem um preço...

Um episódio em particular marcou-me: Marjane, tipicamente respondona na escola. Os professores chamam os pais dela, de modo a adverti-los para as possíveis consequências do seu comportamento. Em casa, perguntam a Marjane se sabe o que aconteceu à filha adolescente de um homem que eles conheciam.

Essa rapariga fora presa, sentenciada à morte. Porém, de acordo com a lei iraniana, uma mulher virgem não poderia ser morta, logo, foi forçada a casar-se com um dos guardas. Também de acordo com a lei iraniana, o noivo teria de dar à noiva um dote; caso a noiva morresse, o dote seria dado aos pais dela.

Os pais da rapariga receberam o equivalente a cinco dólares.

 

O mais provável é que a maioria dos leitores não seja particularmente versada sobre a história política do Irão no séc. XX, e é especialmente importante ler esta obra se se tiver sido convencido que o Irão é um lugar intrinsecamente mau. Os eventos relatados são duros, é certo, mas esta dureza não nos é escondida, não é disfarçada - a mensagem vai contra regimes religiosos extremistas, tendo sido este regime que mudou a vida das pessoas e o rumo do país.

You think I'm stupid?!!!... I can tell by your tie! Piece of westernized trash!

É fascinante poder ser introduzido a esta parte da história pelos olhos de uma criança, que logo se torna adolescente e jovem adulta, emocional, política, impressionável, que nos relata a sua vida de forma intensa, honesta e divertida. Porque Marjane sabe que é preciso rir, e apesar da brutalidade de alguns dos eventos, apesar do peso social e político da obra, apesar de o Irão ser um país que já sofreu "2500 years of tyranny and submission" - acompanhamos Marjane ao longo de vários momentos conturbados no Médio Oriente -, vemos as suas falhas, dúvidas e problemas, enquanto cresce e se torna adulta.

E é precisamente aqui que reside a força deste livro: porque Marjane não relata simples factos históricos, entrelaça a sua vida com a vida do seu país, humaniza todos aqueles que passaram por dificuldades semelhantes ou mesmo idênticas. Isso e um mero relato histórico tem potencial de se tornar aborrecido.

5/5

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