Vejo o primeiro cadáver de um assassinado aos oito anos, ao voltar para casa, vindo da escola pelo exato percurso que estava combinado com os meus pais: Rua Montuoro, Rua Scobar, Rua Leonardo da Vinci, Rua Galileu Galilei, Rua Mozart, Rua Liszt, três andares de escadas, casa.
Ao longo da Rua Montuoro vou pensando no que se passou na escola, finalmente estudámos um povo fantástico, os Fenícios, grandes navegadores. Sigo pela Rua Scobar e vejo três pessoas, imóveis como árvores, a olhar para o mesmo sítio. Há um corpo caído no chão, no passeio, mesmo debaixo da varanda da casa do meu colega Giuseppe Malato, que precisamente hoje faltou à escola. Uma poça de sangue nasce da cabeça do homem que está estendido.
E este é o primeiro assassinado que vejo, por isso encaminho-me na sua direção, mas apercebo-me de que o morto ainda deve estar fresco, na verdade a polícia ainda nem chegou, e, como se por telepatia, um pensamento idêntico brota em uníssono nas cabeças de todos os presentes, de repente todos nos afastamos dali, cada um retomando o seu próprio trajeto, indo à sua vida, sem correr, nunca se deve sair a correr do lugar onde onde alguém foi morto, se a polícia nos parar vão perguntar-nos porque íamos a correr, para onde íamos, o que estávamos a fazer ali. É melhor nunca ter nada a ver com a polícia.
Davide Enia, Autorretrato: Instruções para Sobreviver à Máfia,
tradução de Ana Maria Pereirinha