O propósito foi mostrar que a natureza, em sua múltipla diversidade, é tão surpreendente, que muitas das criaturas que nela existem poderiam se confundir com as que habitam os livros de literatura fantástica, comenta Maria Esther à ‘fina’
Giovana Proença
Não se deixe enganar pelo termo “comum” grafado no título. A Pequena Enciclopédia de Maria Esther Maciel, escritora e professora da Universidade Federal de Minas Gerais, cria e recria, pela linguagem, o mundo. Os verbetes, setenta e seis ao todo, são acompanhados pelo belo traço de Julia Panadés, que assina as ilustrações, e confere imagem gráfica ao símbolo poético. Longe de limitar as interpretações, a combinação potencializa a sutileza aguda do volume, no qual subjetivo e objetivo dividem a mesma página e o abstrato funde-se ao concreto pela palavra.
Pequena Enciclopédia de Seres Comuns surgiu dos estudos de Maria Esther sobre os animais na literatura, somados à botânica. O universo literário funde-se, assim, a outras áreas do conhecimento. Se a biologia, à primeira vista, nos parece uma ciência concreta, longe das abstrações subjetivas e da criatividade, a Pequena Enciclopédia questiona essa ótica. Maciel faz valer, na obra, sua perspectiva “A literatura é um espaço múltiplo e prismático, que acolhe distintos saberes e os potencializa pela ficção e imaginação.”
O resultado é um livro singular. Para o compor, Maria Esther combina saberes e universos. A fusão entre literatura e biologia possibilitou, nas palavras da autora “entrar na esfera do que é vivo, do que existe enquanto força vital no mundo real, e transformar essa experiência em palavras através de um exercício de imaginação”. Como efeito, a encantadora transfiguração do mundo biológico por meio da fluidez poética conquista até mesmo os leitores leigos nas especificidades científicas. A obra conta com predecessores de peso, escritores como Italo Calvino e Jorge Luis Borges já se lançaram em empreitadas semelhantes. Maria Esther destaca, inclusive, o último entre suas principais influências.
Na abertura da obra, somos avisados de que temos em mão um livro que “Foi escrito por uma bióloga que não é bióloga, mas finge ser uma, na medida do impossível”. A proposição nos remete ao fingimento, no sentido poético conferido por Fernando Pessoa, que cunhou “O poeta é um fingidor”. Maria Esther afirma que isso permite “assumir por meio da imaginação (e da empatia), outras identidades e subjetividades, habitar outros corpos, fazer de conta que a história narrada é real”. Nesse sentido, seres imaginários dividem as páginas com aqueles que encontramos gravados nos manuais de zoologia e botânica.
Em tempos em que a literatura brasileira se reinventa pela combinação, ou eliminação, de gêneros literários distintos, a experimentação em Pequena Enciclopédia de Seres Comuns se destaca como uma bem vinda aquisição às prateleiras literárias. A prosa poética de Maria Esther arrebata pelo fascínio exercido pelo mundo natural, ao qual, muitas vezes, o acesso nos é negado na contemporaneidade. Por meio da transfiguração literária, a autora mineira oferece um minucioso olhar sobre esse universo: “O propósito foi mostrar que a natureza, em sua múltipla diversidade, é tão surpreendente, que muitas das criaturas que nela existem poderiam se confundir com as que habitam os livros de literatura fantástica.”. Certamente, a Pequena Enciclopédia o alcança, longe do comum.
Revista Fina: Maria Esther, de onde veio a ideia para a Pequena Enciclopédia de Seres Comuns ?
Maria Esther Maciel: Como sempre procurei articular minhas pesquisas com a criação literária, resolvi me valer de meus estudos sobre animais na literatura para criar o meu próprio catálogo de seres não humanos. Sendo fascinada também por botânica, não poderia deixar de incluir as plantas na minha coleção, atenta aos enlaces entre os reinos animal e vegetal. O propósito foi mostrar que a natureza, em sua múltipla diversidade, é tão surpreendente, que muitas das criaturas que nela existem poderiam se confundir com as que habitam os livros de literatura fantástica. O critério escolhido para a seleção dos seres e montagem do livro foi o dos nomes populares dos bichos e plantas, mas sem abrir mão de nomenclaturas e referências científicas. Aliás, os nomes já estiveram presentes num outro trabalho meu de ficção, O livro dos nomes, e sempre despertaram meu interesse.
Em sua pequena enciclopédia, vemos uma fusão entre literatura e biologia. De que modo isso foi pensado por você?
A fusão entre literatura e biologia me possibilitou, ao mesmo tempo, entrar na esfera do que é vivo, do que existe enquanto força vital no mundo real, e transformar essa experiência em palavras através de um exercício de imaginação. Assim, misturei descrições biológicas com elementos ficcionais, entrelaçando seres existentes com alguns poucos inventados, mas sempre reinventando os que existem. Parti do princípio de que, se a biologia investiga a natureza pelas lentes da ciência, a criação literária pode transfigurar – pela ficção e os recursos da linguagem poética – os saberes biológicos em histórias, imagens, reflexões crítico-criativas e sensações. Procurei me valer desse jogo.
Você teve alguma influência literária? E de alguma outra área?
Jorge Luis Borges sempre foi uma presença luminosa em meu percurso literário e, no caso da Pequena enciclopédia de seres comuns, ele se se faz presente através dos influxos do seu livro Manual de zoologia fantástica. Outros autores que me iluminaram no processo de composição dos verbetes foram José Emílio Pacheco, mexicano, e Wilson Bueno, paranaense, ambos voltados para o universo zooliterário. Os compêndios antigos e modernos de zoologia e botânica também me inspiraram.
Como você enxerga o contato entre literatura e outros saberes?
A literatura é um espaço múltiplo e prismático, que acolhe distintos saberes e os potencializa pela ficção e imaginação. São muitos os escritores – alguns enciclopédicos, como o próprio Borges – que dialogam com outros campos do conhecimento, transformando o espaço literário em um ponto de interseção desses campos.
Assim que abrimos o livro encontramos que “Foi escrito por uma bióloga que não é bióloga, mas finge ser uma, na medida do impossível”. Isso nos lembra um pouco o fingimento do poeta, de Fernando Pessoa. Qual o papel do fingir na sua ficção?
O fingimento, compreendido no sentido pessoano dessa palavra, é uma via fértil para a criação, por se tratar de um artifício ficcional que permite a quem dele se utiliza assumir, por meio da imaginação (e da empatia), outras identidades e subjetividades, habitar outros corpos, fazer de conta que a história narrada é real. O fingimento poético-ficcional não deixa de ser a verdade da poesia e da ficção. Por isso, procuro sempre explorar suas propriedades nas coisas que escrevo.
Qual o lugar da prosa poética ou do poema em prosa, para você, na nossa literatura contemporânea?
A prosa poética e o poema em prosa atravessam a história da nossa literatura desde sempre. A partir das últimas décadas do século XX, outros registros textuais passaram a atravessar, de maneira incisiva, essa conjunção, propiciando a disseminação do que chamo de escritas híbridas. Creio que, na literatura contemporânea brasileira, essas hibridações têm se tornado recorrentes em obras de escritores e escritoras que vêm se aventurando em poemas mais heterogêneos, constituídos da mesclagem de modalidades textuais diversas, que vão da narrativa, da poesia e do ensaio a outras mais alternativas, como verbetes de dicionário e enciclopédia, aforismos, cartas, receitas culinárias, extratos de diário íntimo, bulas de remédio, manuais de instrução etc. Se muitas dessas escritas não se classificam como poemas em prosa nem como prosa poética, nem todas abrem mão dos recursos da poesia. Há inclusive as mais radicais, que buscam chegar, caso isso seja possível, a uma espécie de “grau zero do gênero”.
Além de escritora, você também é pesquisadora e professora. Você acha que a Academia influência na sua escrita?
O trabalho como professora/pesquisadora e a criação poético-ficcional não são, para mim, atividades dissonantes, excludentes. São experiências distintas, mas afins, que se nutrem reciprocamente. Minha formação/atuação acadêmica sempre foi importante para o meu aprendizado/aprimoramento enquanto escritora, e as pesquisas que realizo quase sempre incidem no meu trabalho criativo. Por outro lado, o exercício poético-ficcional não deixa de atravessar o meu trabalho como professora e pesquisadora.
Como foi o processo das ilustrações?
Sempre admirei o trabalho artístico da Julia Panadés e, como a minha ideia era seguir o modelo dos catálogos de zoologia e botânica que articulam textos e ilustrações, resolvi convidá-la para participar do livro. Já tínhamos feito uma parceria em O livro das sutilezas, que integra o volume Longe, aqui, em que reúno minha poesia “incompleta”.
Você participou junto com a Julia Panadés?
O processo foi bem prazeroso. Assim que eu reunia um conjunto de verbetes, eu os enviava a ela, que, além de ficar atenta às minhas descrições dos seres, também fazia pesquisas iconográficas para desenhá-los. Achei incrível a nossa sintonia nesse trabalho. A Júlia entrou no registro dos verbetes e conseguiu imprimir belamente nas imagens o enlace entre ciência, poesia e ficção.
Qual o seu verbete preferido da sua pequena enciclopédia?
Difícil escolher um. Gostei muito de escrever, por exemplo, os verbetes “Maria-Fedida”, “Viúva-Negra”, “João-Doidão” e “Orquídea-Macaco”.
