Daniel Galera e Rafael Coutinho
Cachalote
Polvo
Quando foi publicado no Brasil, este livro teve o efeito de quebrar as habituais barreiras de classificação editorial, surgindo nos escaparates ao lado de outros livros que com ele se destacaram e escapando ao habitual fado da banda desenhada, quase sempre remetida para as zonas cinzentas das livrarias.
Cachalote são cinco histórias, cinco personagens que num instante arrasam qualquer esperança de virem a relacionar-se, mas são uma só narrativa, uma espécie de monumental novela da contemporaneidade, sem peneiras de pós-modernismo. Esta aparente contradição resolve-se na temática e no modo de narrar — definido pelo argumento de Daniel Galera, que já conhecíamos como romancista, mas sobretudo pelo modo como o traço fino e tortuoso de Rafael Coutinho se apropria desse argumento —, ambos marcados pela deriva dos personagens e por uma constante indefinição em relação ao futuro.
Ao contrário de Jonas engolido pela baleia dos tempos bíblicos, as personagens de Cachalote não chegam a renovar-se. As suas narrativas parecem confirmar que o tempo de alcançar o ventre da baleia já passou. A outra baleia patrimonial, Moby Dick, também aqui não cabe, já que não há gesta nem vontade de vingança. De um certo modo, Cachalote está depois disso, dos arquétipos, dos símbolos e até da esperança. Nem baleia é, quanto mais símbolo de renovação. Não passa de um destroço, e por isso mesmo diz tanto sobre os tempos que vivemos e o modo como vamos conseguindo navegá-los, sempre sem rota nem bússola.
Sara Figueiredo Costa
(publicado na Time Out, Nov. 2014)
