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Fev24

Maria do Rosário Pedreira

Há alguns dias em que o céu atinge uma tonalidade rósea, e é dessa cor a capa do novo romance de Valter Hugo Mãe, intitulado Deus na Escuridão, que é o livro que tenho em mãos no momento em que escrevo este post. Contaram-me que, na apresentação do livro no Porto, com a sala cheia, o professor Carlos Reis terá dito que o livro inaugurava uma nova fase na obra do autor; mas, longe de querer perceber mais da coisa do que um académico especializado em literatura portuguesa, e apesar de encontrar no novo romance uma língua diferente (que é um português com um sotaque brasileiro e frequentemente sem pronomes reflexivos nos verbos), a verdade é que encontro neste livro amplas semelhanças com o primeiro romance que Valter Hugo Mãe escreveu (O Nosso Reino), talvez na ligação do protagonista à santidade ou na sua devoção sem limites a um membro da família (aqui o irmão, supostamente «defeituoso»; mas estrago o prazer do leitor se disser porquê; no outro livro a mãe) e até numa certa bruteza do mundo à sua volta, neste caso o do meio muito pobre e atrasado de uma aldeia madeirense. Também o casarão da baronesa (a excepção naquele meio) me levou a pensar noutros livros do autor em que os opostos marcam a história (O Apocalipse dos Trabalhadores, por exemplo), mas aqui a saúde mental está sempre em causa, sejam as personagens privilegiadas ou não. É, como quase sempre, um livro duro (a escuridão do título anuncia-o), mas ao mesmo tempo comovente na solidão de quem ama incondicionalmente alguém. Vamos ver como acaba.