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Jun10

Maria do Rosário Pedreira

Uma das coisas mais difíceis de sustentar numa narrativa, sem parecer forçada, é, sem sombra de dúvida, um narrador-criança. A coisa pode descarrilar pela inverosimilhança (quando as crianças falam como adultos, demasiado espertinhas e cultas) ou simplesmente porque o discurso infantil, sendo demasiado longo, pode ser extenuante e levar, por vezes, os leitores a sentir que estão a ler um livro juvenil. Mas há muitos casos bem-sucedidos em várias épocas e, recentemente, não posso deixar de referir o narrador de onze anos de Extremamente Alto e Incrivelmente Perto, de Jonathan Safran Foer – autor norte-americano que tive o orgulho de dar a conhecer em Portugal, ainda na Temas e Debates, com o romance (a não perder) Está Tudo Iluminado. Este menino precoce e sobredotado (boa forma de defender a auto-suficiência da personagem) perdeu o pai no World Trade Center no 11 de Setembro, embora ninguém soubesse o que fora ele lá fazer. Uma chave encontrada num envelope pode ser a chave para esse enigma. E o caminho para a descoberta é todo um programa de amor e redenção. Acho que até chorei em algumas partes (e ri muito noutras). Inesquecível.