Na busca por uma literatura descentrada do eu, Saavedra aproxima O manto da noite de sua coletânea de ensaios, O mundo desdobrável
Giovana Proença
Desde a primeira vista, O manto da noite é uma ficção singular. Mais
recente romance de Carola Saavedra, escritora brasileira nascida no Chile, o livro justapõe formas narrativas distintas – passíveis de serem com
paradas aos relevos da Cordilheira sul-americana, princípio unificador do romance.
O manto da noite é, para Saavedra, o seu livro mais misterioso. Ela conta à fina que o romance surgiu da necessidade de escrever sobre algo desconhecido. “Somos falados pelo mundo, e não agentes dessa pronun ciação, ao contrário do que nos diz o senso comum.”, acredita a autora
de, entre outros, Com armas sonolentas (2018) e O inventário das coisas ausentes (2014).
Na busca por uma literatura descentrada do eu, Saavedra aproxi
ma O manto da noite de sua coletânea de ensaios, O mundo desdobrável (2021), publicada pela Relicário. A autora vê as duas produções como liv ros-irmãos, de modo que o romance é a prática da literatura pensada por ela em seus textos teóricos.

Com uma obra multifacetada, que envolve romances, poesia e
obras de não ficção, Carola Saavedra escreve em uma posição fronteiriça. Não por acaso, foi no campo das artes visuais que ela buscou o realismo onírico, que marca O manto da noite. Distante do realismo tradicional, o conceito se aproxima do pensamento indígena e designa uma busca pela verdade em estados de consciência como o sonho e o transe.
Apesar das veias herméticas desta ficção, mergulhada em mistérios profundos que abarcam o senso de identidade e de ancestralidade, há
um forte teor social. Saavedra toca um passado concreto: o turbulento
histórico da América Latina, marcado pela brutalidade. A autora vincula a linha central de O manto da noite à “história colonial latino-americana e suas consequências até os dias de hoje”. Sobre o processo de escrita, as linhas estéticas e as influências de sua prosa, Carola Saavedra respondeu às perguntas da fina:
De onde surgiu a ideia de escrever O manto da noite?
Não sei dizer quando, nem sei dizer se a ideia “surgiu”. De certa
forma, ela sempre esteve lá, no inconsciente, esperando o momento de vir à tona. Sinto como se o livro já existisse em algum lugar. O que eu fiz foi fazer o – longo – caminho de chegar até ele, um caminho feito através daq uilo que escrevi antes e da própria vida. Pode parecer um pouco esotérico o que digo, mas não é essa a minha intenção. Me refiro mais ao fato de
que somos feitos de palavras e elas já existem antes de nós. Sendo assim, somos falados pelo mundo, e não agentes dessa pronunciação, ao con
trário do que nos diz o senso comum. Mas, respondendo de forma mais concreta, o livro foi resultado de um desejo de dizer algo que eu mesma ainda desconhecia, e que em certa
medida, continuo desconhecendo.
Nesse sentido é o meu livro mais
misterioso, inclusive para mim mes
ma. [Carola Saavedra]
No livro, há alguns toques que ress
oam o realismo fantástico, tão caro
para a literatura latino-americana.
O que te fez levar a sua ficção para
este lado e para o que você chama
de realismo onírico?
Eu me afastei do realismo ur
bano, que é a principal tendência na
literatura brasileira contemporânea,
porque a partir de um determinado
momento me pareceu que a “re
alidade” já não estava dando conta
da realidade. Eu precisava buscar
outros caminhos para a minha
narrativa. O termo Realismo Onírico
eu busquei nas artes visuais e trouxe
para a literatura, porque ele designa
de forma mais exata aquilo que eu
estou trabalhando na minha escrita,
algo que parte de um princípio mui
to comum no pensamento indígena,
mas não só nele, que é a busca da
verdade não no que chamamos de
vigília, mas em estados alterados de consciência, como o sonho, o transe, a “loucura”. A mim interessava isso, essa busca da “verdade” que foge à
razão cartesiana, essa tentativa de reconstruir o mundo a partir de outras epistemologias.
O manto da noite guarda muitas semelhanças com as suas ideias na
coletânea de ensaios O mundo desdobrável. Como é para você conjugar a ficção com diferentes saberes teóricos?
Bom, eu considero que são livros-irmãos, ou seja, O manto da noite é a prática daquilo que O mundo desdobrável propõe na teoria, especial mente no quesito “uma literatura descentrada do eu” ou que escapa a ele. Nesse sentido, o que faço no romance é criar uma
personagem sem “eu” definido, ela é a criança que caminha pelas ruas do Rio de Janeiro, a alma que atravessa a Cordilheira dos Andes e que em algum momento vai se metamorfosear num animal, é também a escritora e até Caliban, ou seja, ela não somente não tem uma personalidade própria, como não tem um corpo para chamar de seu. Mesmo assim, há algo que alinhava os diversos episódios e nos mostram que se trata de um único ser em seu processo de descentramento subjetivo, mas com
um desejo que insiste, como por exemplo, a busca de uma ilha ou no seu “verdadeiro nome”.
Qual foi a sua intenção estética ao combinar diferentes técnicas narrati vas no romance?
Eu sempre tive interesse em trabalhar nessa região fronteiriça entre romance e poesia, romance e ensaio, romance e teatro etc. Me parece que é aí, nesse espaço, onde ainda é possível esgarçar num sentido estético, as regras do romance. Então, sob esse ponto de vista, O manto da noite apenas radicaliza essa tendência que sempre existiu na minha literatura.
Como você vê a assimilação de narrativas menos convencionais dentro do mercado editorial brasileiros dos dias de hoje?
Ainda é algo raro, principalmente no caso das grandes editoras. Tenho a impressão de que, em geral, são as pequenas e médias editoras que fazem essas apostas. Isso é uma pena, porque é nessa literatura que não está preocupada com o mercado, que pode surgir algo novo, radical
mente novo, dentro do que é possível nesse sentido, já que o “novo” não existe nesse sentido cronológico. Mas pode existir enquanto subversão das regras vigentes.
No romance, temos uma crítica à turbulenta história latino-americana, marcada por inúmeras violências. Você pretendia, inicialmente, tecer esta crítica?
Essa era a minha principal intenção, ou melhor dizendo, a linha cen tral do romance que eu queria escrever: a história colonial latino-america na e suas consequências até os dias de hoje, a busca de uma identidade, o genocídio dos povos indígenas, a escravidão, as guerras etc. Agora, como isso aconteceria, eu não tinha a menor ideia, a história foi surgindo na
medida em que eu a escrevia, ou talvez, a narrativa foi se escrevendo a si mesma.
Que autores você aponta como as principais influências da sua escrita?
Eu tive muitas fases. Houve a fase Piglia, especialmente os ensaios, foi algo que me marcou muito. Teve também a fase Cortázar, que me mostrou outras formas de pensar o romance. Mas, talvez a autora que mais tenha me marcado seja Clarice Lispector, que é uma marca que eu carrego até hoje e leitura à qual eu sempre volto.
Se pudesse deixar apenas um recado para o Brasil de hoje, qual seria?
O Brasil é tão complexo que eu não me atreveria a deixar um recado. Talvez o meu livro de ensaios O mundo desdobrável seja o meu recado,
minha forma de enxergar a literatura e como ela pode ser uma ferramenta de transformação social, nos ajudando a pensar outros mundos possíveis e um país melhor.