[especial] Como o dia do livro se tornou marco dos corajosos em tempos de Pandemia
literatura, mercado editorial, redes sociais, leitura, sebos, comportamento
Libreria Nanni Bologna/Wikimedia Commons Mas, afinal, por que comemoramos o dia do livro mesmo? Qual é a importância que empunharmos um livro revisitado, costurado, autenticado e acabado por uma equipe editorial? André Vieira, Giovana Proença e Matheus Lopes Quirino Instaurado inicialmente pelo governo catalão na Espanha, em cinco de abril de 1926, a fim de comemorar o nascimento do escritor espanhol Miguel de Cervantes, o Dia Internacional do Livro tinha como intuito a promoção nacional de obras na língua catalã e espanhola e a rememoração do legado pelo cânone do país. No entanto, a data comemorativa como conhecemos e celebramos hoje remonta 1995, quando a Unesco, braço da Organização Nações Unidas destinado ao fomento da educação, ciência e cultural mundial, internacionalizou o evento, transferindo-o para 23 do mesmo mês, com o propósito de não apenas rememorar a morte do escritor espanhol, mas também colocar no rol de homenageados o homem de letras catalão Josep Pla e o cânone inglês, William Shakespeare. Mas, afinal, por que comemoramos o dia do livro mesmo? Qual é a importância que empunharmos um livro revisitado, costurado, autenticado e acabado por uma equipe editorial? Por quais olhos insones e por quais mãos hirtas essas frases, linhas, folhas, capas e encadernações foram rigorosamente lavradas, marcadas e analisadas antes de chegarem claras e inteiriças a novos pares de olhos e dezenas de dedos? E, principalmente, qual é a importância de um(a) autor(a)? Aquele que se furta do cotidiano caótico, do dissabor do labor e das próprias inquietações da alma, para se desafiar em sua cruzada íntima, contando ao leitor sobre o tempo que viveu e que não viveu, sobre a utopia do passado e o caos do futuro, sobre revoluções invisíveis e silêncios ensurdecedores: sonhos possíveis de realidades distantes. Em meio à sua escrivaninha bagunçada, geralmente, à meia-luz ou à meia-penumbra, acompanhado(a) por um líquido sólido a seu lado, esse ser comete os piores crimes descritos pela humanidade: regam a si próprios, a seus pais, amigos e filhos o desejo furtivo de se perder no ócio, e necessidade imperativa de não fazer nada. A fim de transformar vozes difusas, pensamentos avoados e sentimentos opacos em prosa e poesia, lápis e papel linguagem e ritmo, corpo e alma em receptáculos próprios encarnados e encarnados, essas criaturas renegam a viver indefinitivamente em função “eu” e dos “seus”, em função da celebração de “Nós” como criadores de nossos próprios caminhos e descaminhos. Assim, o Dia do Livro, mais do que homenagear o trabalho árduo da produção editorial e autoral, coloca em questão a importância de como o conhecimento, a informação, e nossos valores como comunidade são compartilhados, transmitidos e herdados via o contato com a tinta e o papel. Ao contrário de povos de cultura estreitamente oral, o zênite procurado por essas comunidades, sobretudo com raízes indo-europeias, se baseia no legado deixado sobre capas de couro, com páginas amarelas em bibliotecas seculares à espera e à espreita que alguém as toque e que suas vidas sejam reanimadas, que suas chamas sejam reascendidas, que suas vontades se façam nossas: breve, que Nossa história volte a ser recontada, remanuseada e reinterpretada por outros pares de olhos e outro dueto de mãos. (André Vieira) Livros para a hora H Hoje, não basta ler, tem que parecer que lê, mesmo não lendo nada. Parecer que lê é ser descolado para quem mexe com livro Robert Crumb/divulgação A televisão está inundada de dois assuntos: a peste (coronavírus) e a Peste, com P maiúsculo, que tem nome próprio, sobrenome e cadeira cativa no Palácio do Planalto, também com P maiúsculo. Parêntesis: lá há uma biblioteca bem abastecida de livros variados. De clássicos da literatura brasileira a obras essenciais do direito e da teoria política. Há um bom tempo aquilo tudo virou só decoração. Está pegando pó, às moscas, para algum dia um gaiato qualquer possa ter a brilhante ideia: “Funciona, posso parecer inteligente!”. Aqui está um princípio da cenografia. Engana-se quem pensa que livro traz inteligência. Não traz. É preciso os ler, discuti-los. Um livro dando sopa, quase pedindo sensualmente “Me paga, me abre, me consuma!”, é uma tentação para quem curte esse fetiche (e quem não curte também pode gostar, basta provar). Livro gosta de ser tratado bem. Sim, mas é um objeto que necessita, pelo menos uma vez na vida, um trato, digamos, mais hardcore. “Me pega, me abra, me consuma”. Depois vem “Me rabisque, escreva dentro de mim!”. E não só no auto amor. Ele quer que saibam o quanto foi feliz aquela relação: — Ontem terminei de ler Afetos Ferozes, em duas tacadas, praticamente engoli o livro… — Então gostou? — Se gostei, tive quase um orgasmo literário! Pegar no livro, cheirar as páginas de um livro novo, espirrar por cheirar as páginas de um livro velho, catalogar o livro na estante, separando-o por autor, cor, editoria, assunto, tema, ficção ou não ficção, literatura brasileira ou estrangeira, etc. Um livro feliz é um livro lido e, já feito, a cereja do bolo é comentar com outro leitor, mas fazer isso através das palavras em um breve momento, quase um ato falho, natural, prova de fôlego para a próxima leitura, o próximo ato. * Eu leio livros! Eu leio livros! Diz fulana, que tem um canal no YouTube e explica correndo Orlando, aquele que atravessou o próprio tempo como sua criadora, Virginia Woolf. Lá está a figura, olhando para uma câmera enquanto balbucia algumas frases feitas: “Livro bom; interessante porque…”, “Uma leitura formidável porque eu acho…”, “Magnificente”, “Estrondoso”, e mais uma porção de adjetivos gordos que são dispensáveis numa resenha crítica palatável. Orlando dispensa comentários, mas a pessoa reage. Fala de si, fala de Orlando, fala de si, fala de si, fala de si. E acabou. Acabou o vídeo, não tem espaço para perguntas, debate, nada. Saio da tela com a sensação de estar imbecilizado. Olho para minha velha estante de livros surrados, coleções antigas, exemplares de sebos, cortesias de editoras e presentes de amigos. Não tem Orlando ali, mas, em algum momento, ele esteve comigo. Talvez tenha o pegado em uma biblioteca. O li e lá deixei para o próximo embarcar. Quem segue a tal Fulana dos livros é Cicrana. Uma criatura bastante sorridente, até bonita, menos quando não está sorrindo. Sorri, está radiante, mas fala mal. Tão mal que não tem coragem de gravar um vídeo igual Fulana, que é bonita, loira, rica, popular, queridinha do clubinho, da High Society. Ela não tem a mesma persuasão. Na sua conta no Instagram, de 10 postagens, 11 são de livros. Livros sob sua cama, livros espalhados pela escrivaninha atulhada de outros livros em cima de caixas e livros plastificados. Livros novíssimos, edições de luxo. E ele é o rei da concisão “É um livro ótimo porque eu gostei”. “É um livro bacana, é bem legal porque a personagem se parece comigo”. “É um livro supimpa porque a capa é bonita”. Claro, a última frase é invenção minha, ela não sabe que existe a palavra supimpa, pelo menos nunca vi usar. Vou falar quem é? Nunca, nem sob tortura, nem dos livros. Mas é claro que estamos na ponta do Iceberg. Dia desses vi em oferta na Amazon uma espécie de papel de parede de estante. Explico, uma réplica de uma estante, com títulos robustos, de Crime e Castigo a Orgulho e Preconceito, todas as lombadas devidamente prontas para serem adesivadas na parede. Virou meme essa história, principalmente depois que os programas de televisão começaram a entrar ao vivo da casa dos comentaristas. Qual estante é a mais bonita? Estava lá no Painel da Globonews. Quem disputaria com Ariel Palacius, o pioneiro da decoração que virou moda entre todos. Quem tem a maior estante, a mais discreta? Qual é a mais elegante? Mais robusta? Mais sintética? Muitas perguntas para muitas estantes. Nenhuma alma lê uma estante inteira, diz o conhecimento de causa. Hoje, não basta ler, tem que parecer que lê, mesmo não lendo nada. Parecer que lê é ser descolado para quem mexe com livro. Publicar sobre livros, com comentários sintéticos, e ganhar a alcunha de intelectual honorário chancelada pela Web. Diploma para o WebLeitor. Isso para não entrarmos no mérito do E-Book, um assunto à parte. Ler ou não ler, eis a questão. “Leio 365 livros por ano”. “Leio dois”. “Leio uma dúzia”. “Leio Ulysses“, “Vejo filmes sobre livros”, “Leio adaptações”. Não importa o currículo, o parecer e a estante robusta basta como consolo e alívio para a consciência de quem não trata com o devido amor, sem o toque continuo de dedilhar página por página. Numa leitura de duas horas, muitos sentidos ficam à flor da pele. As melhores experiências são as mais indescritíveis. “Não consigo contar, é preciso ler”. Como resenhista profissional, aprendo a cada leitura novos jeitos de esquematizar e assimilar o que estou lendo para contar um causo bom para o leitor. O livro mais maçante pode ter sua graça, o mais excitante pode passar batido, assim como certas promessas caem por terra, esperanças se vão. O desafio é amarrar a boa história, claro, não entregando ao leitor o que, sem dúvida, só o livro é capaz de entregar. Damos as preliminares, a hora agá é com o leitor, se ele estiver no pique, é claro. (Matheus Lopes Quirino) Um percurso sentimental pelos sebos Não há lugar mais democrático do que o sebo. Nietzsche, seu super-homem e a voz que afirma ‘Deus está morto’ podem dividir ironicamente a prateleira com o Evangelho Lucas Machado/divulgação Eles que se abrigam em pequenas portas sem vitrines e por casarões tombados, da Sé até a Consolação, nos arredores de estações de metrô. Que por alguns passos hospedam os passantes da Estação Cultural que cruzam o eixo Paulista. A rotina mais acentuada quando se derramam pelas calçadas, ao rés do chão. A dose de saudade de muitos literatos em quarentena — eles mesmos — os sebos. Por demanda ou por descuido de transeunte desocupado, em anseio por perder-se por alguns instantes, você decide entrar. Algo sussurra para que adentre aquele ambiente de nome pouco convidativo. Cruza a porteira, e não há mais volta. O primeiro inspirar nem sempre é agradável, os que sofrem da rinite podem sentir o desconforto no nariz, seguido por alguns espirros teimosos. Mas, no fundo, as parcelas do aroma daquela história está lá, as prosas que nos constroem e destroem nas páginas muitas vezes amareladas. Por sorte, temos até trilha sonora, afinal, muitos sebos dividem espaço com discos. O bom e velho vinil, motor das vitrolas vintage, roda suas toadas. Nossa MPB e os clássicos americanos de décadas de outrora afagam os ouvidos enquanto prosseguimos a exploração. O trajeto é mágico, uma verdadeira viagem no tempo. Ouso traduzir livremente Robert Frost, célebre poeta americano do século XX “Duas estradas divergem em um carvalho seco/ e lamento, mas não pude viajar por ambas”. O sebo nos dá uma chance de reescrever os atos – aquele livro deixado nas prateleiras da livraria em um fim de mês especialmente apertado ou o volume abandonado após uma leitura amarga – novas oportunidades são instauradas. Não há lugar mais democrático do que o sebo. Nietzsche, seu super-homem e a voz que afirma ‘Deus está morto’ podem dividir ironicamente a prateleira com o Evangelho, e até com um exemplar de comic book da Marvel. Nicholas Sparks discute com o romantismo de Goethe. A poesia metafísica de Hilda Hilst acaba lado a lado a um volume com as palavras poesia e alma levianamente grafadas. Temos a chance de caminhar pela literatura brasileira, e como é engraçado — e um pouco revoltante, assumo – encontrar nomes como Eça de Queirós, Fernando Pessoa e José Saramago erroneamente entre nossos escritores, implorando para cruzar o oceano em Grande Navegação para a Literatura Estrangeira. O olha atento no percurso pelo nosso time verde e amarelo nos permite criar grandes frases: Iracema cantou a Lira dos vinte anos nas Noites na Taverna. Olhai os lírios do campo no Cortiço. A hora da estrela Perto do coração selvagem. Memórias póstumas de Brás Cubas na Pauliceia Desvairada. Nesse percurso, enfrentamos uma vilã. Uma não, centenas. Se Kafka e Clarice têm suas baratas, nós temos elas. As temidas traças, roedoras do papel. Elas que corroem ferozmente todo um universo. Arredias, se escondem por páginas e páginas. Assistem o adultério de Madame Bovary, a morte de Ivan Ilitch e o nascimento de Benjamin Button e, em uma noite, convertem tudo ao nada. Um assunto delicado, o inventário de livros com dedicatórias que acabam nos sebos por uma nota de vinte, ‘à vista por 10’. Edições que passam de pai para filho, tradição interrompida em uma prateleira catalogada de livros raros. Os volumes mais românticos da poesia, com dedicatórias de juras de amor eterno, a promessa rompida do ‘Soneto da fidelidade’ que encontra seu fim na seção poética. Histórias anônimas dentro de grandes histórias. Para citar Vinícius de Moraes, compositor de canções que embalam a Bossa nova, uma vez encontrei um exemplar de Para viver um grande amor por vinte reais em um sebo na Augusta. Cometi um doce engano, jurei que uma inscrição gráfica se tratava de um autógrafo do próprio Vinícius. Sou colecionadora nata e admito, minhas mãos tremeram em excitação com a possibilidade. Vibrei com meu fortúnio por alguns segundos até o proprietário do sebo me alertar do meu equívoco com toda sensibilidade de quem estava destruindo um sonho. Por um instante, a voz de Maysa tocou na minha cabeça ‘Meu mundo caiu’. Deixei o livro por lá, e confesso que perdeu a graça. Recebi ainda um último ensinamento “É, moça, sorte grande assim não se tira, ainda mais Para viver um grande amor”. O trajeto encontra seu destino. Às vezes saímos de mãos vazias, levando na cabeça o tempo como visitante do sublime, entre linhas e letras que integram a literatura universal, que Goethe chamou Weltliteratur, em língua germânica. Para os que não se limitam a carregar apenas um vislumbre dessa viagem, uma ida no sebo é como viver um grande amor. Muitas capas belas chamam atenção, mas sempre tem o escolhido, o volume que se esconde nas prateleiras, as páginas tímidas levemente empoeiradas, que afagamos suave, o olhar que diz “Eu sei que vou te amar”. Sabemos, assim nasce um romance de cabeceira. A sorte grande é encontrá-lo antes das traças. (Giovana Proença)
Texto originalmente publicado em Revista Fina