Por Renata Deda Mendonça Ferreira
Para essa segunda rodada, resolvi falar da televisão, influenciada por minhas aulas de sociologia, que vêm tratando ultimamente de conceitos como alienação, fetiche (mais recentemente), dentre outros. O professor passou um trabalho que era fazer uma análise crítica sobre um texto que ele entregou a respeito da televisão. Pensei, então, que o tema seria uma boa opção para nosso blog, por ser constantemente atual e interessante, e adaptei-o para tal, colocando mais exemplos e explicações. Espero que gostem.
Desde que surgiu, a televisão faz parte da vida das pessoas. No início, eram poucos os que podiam assistir as suas programações, ainda em preto e branco. Mas hoje é elemento essencial na vida de gente das mais diferentes classes sociais, é o aparelho eletrônico mais presente na casa dos brasileiros, seja para fins informativos ou de entretenimento.
O fato é que, como muitas vezes a televisão é a única fonte de notícias dentro da casa das pessoas, ela acaba moldando as opiniões do grupo que ali reside. A função dos telejornais, por exemplo, é apenas informar o que acontece sem colocar nem tirar, mostrando a realidade dos fatos. Porém acaba apresentando uma hiper-realidade, ou seja, uma realidade “aperfeiçoada”, partindo para o extraordinário da notícia, muitas vezes irrelevante. Além da seção jornalística, há a parte de distração, composta por programas de auditório – que põem à prova a inteligência de qualquer um – e telenovelas, que promovem imitação de hábitos, aguçando o imaginário de cada pessoa, “dopando-as” e “viciando-as”, fazendo com que busquem, inconscientemente, alguma lembrança íntima que se relacione com o que é mostrado. No entanto, é certo que as telenovelas têm uma determinada importância ao tratar de temas polêmicos, ajudando a desmitificar a convivência com um aidético, por exemplo, ou mostrando que pessoas com Síndrome de Down são perfeitamente normais. Unindo essas duas principais componentes da programação televisiva, chega-se ao que os sociólogos chamam de violência simbólica. Violência simbólica não vem a ser aquela direta, com agressão física ou verbal, mas sim a que, manipulando de forma sublime a mente das pessoas, conduzindo-as a ações meramente “fantochescas”, e que violentando o subconsciente do telespectador, se torna um meio de alienação. Assim como um espancamento (violência física) pode deixar marcas pelo corpo, a violência simbólica deixa marcas no subconsciente – a alienação. Como disse Josef Goebbels, ministro da propaganda na Alemanha nazista: “Uma mentira dita cem vezes torna-se verdade”. Essa frase pode ser aplicada à manipulação feita pelos meios de comunicação, como por exemplo no caso da morte da menina Isabela. A mídia não parava de falar sobre o assunto e induziu a população a acreditar que o pai e a madrasta da garota eram os culpados.
Concordo com Albert Camus quando ele diz: “Começar a pensar é começar a ser atormentado”. Até estudiosos, às vezes, têm seus momentos de ‘preguiça’, imaginemos quem não tem familiarização alguma com as letras. É muito mais fácil para quem tem uma vida atribulada e cheia de amarguras aceitar o que diz o primeiro rostinho bonito que aparece na televisão. E quando ‘cai a ficha’, quando a pessoa pensa por si só, acontece o choque entre o racional e o emocional. Partindo da “maquiagem” da televisão, pode-se dizer que ela promove na sociedade o padrão que quer, o padrão dos grupos poderosos que detêm em suas mãos os meios de comunicação. Essa característica pode ser tomada por etnocentrismo, que nada mais é do que a supervalorização do “eu”, ou seja, a pessoa avalia outro grupo social a partir de valores do seu próprio grupo, como por exemplo, no Holocausto, quando os alemães julgavam ser a raça pura. No caso, a televisão transmite seus programas colocando-se no centro da vida do sujeito. Ao invés de ler um livro, o cidadão vai ver imagens. São mais práticas… parecem mais reais…
Talvez uma orientação mais bem elaborada por parte das escolas ajudasse a formar jovens críticos e conscientes. Não digo com isso que a escola tem responsabilidade direta com a educação da criança, essa função cabe aos pais. Entretanto, é inegável que desde pequenos passamos quase metade do dia na escola, e o que vivenciamos nela tem grande influência sobre nossa vida futura. Como diz meu professor de religião, Ivo, “há muitos jovens vazios porque há poucos adultos transbordando”. Essa frase se encaixa perfeitamente nesse caso, pois reflete bem um dos motivos de termos tanta gente inerte e sem opinião própria. Os pais têm função fundamental na educação da criança, e cabe a eles não permitir que ela se torne uma “esponja”, absorvendo tudo o que vê e ouve. Não é proibir um (a) garotinho (a) de assistir à televisão, mas estar sempre supervisionando e orientando para o que se deve aprender ou não. Mas como fazer isso se a desinformação parte dos próprios pais? Ou se grande parte dos responsáveis passa o dia inteiro fora de casa? É sempre bom assistir de tudo um pouco, seja para desenvolver seu lado crítico-social, ou seja para descontrair. Essas ações requerem desenvolvimento do senso crítico, que é nada mais que distinguir realidades sem que precise se anular para o mundo, sem deixar que o poderio da TV nos controle com sua ideologia manipuladora, que mascara a realidade ao seu bel prazer. Afinal as idéias daqueles que controlam a mídia e manipulam a opinião do povo prevalecem sobre a sociedade. É fato que existem bons programas na televisão, programas que trazem alguma informação, ou alguma curiosidade interessante. Contudo, se observarmos, passam em horários de pouca audiência, como o “Globo Ciência” que é exibido às 6 horas da manhã.
Se existe uma forma de pulverizar informação de uma só vez, essa forma é pela televisão. Mas haveremos de convir que é um pouco difícil lançar mão de uma reportagem sequer, alertando as pessoas para possíveis alienações que a televisão pode causar – parece até uma bula de remédio: “reações adversas” (rsrs). Eu diria até utópico. A educação é a única válvula de escape para esse problema. Direito à educação, todos têm; acesso a ela, muitos têm; mas educação de qualidade são poucos que usufruem. Até para questões tão importantes como escolher o governante da cidade, estado ou país, a televisão tendencia os eleitores, e os mais desavisados votam naquele que tem a melhor propaganda. Um exemplo disso foi a eleição do presidente Fernando Collor de Melo, nítida demonstração de controle de massa, principalmente por parte da Rede Globo, quando esta manipulou o debate ocorrido dias antes da votação
A televisão não deixa de servir a interesses capitalistas: lucrar com audiência. Logo, se faz indústria cultural. O termo ‘indústria’ dá a idéia de produção, de máquinas, de capitalismo, de finalidades. As indústrias mais comuns produzem um material para ser vendido. Que produto seria promovido, então, por uma indústria cultural? Cultura é claro! Ou seja, uma empresa trabalhando com a produção de jornais, revistas, mídia em geral com fins lucrativos. Além disso, contribui para melhorar a economia do país, mesmo que através da energia por ela consumida. É através da televisão que ficamos sabendo das promoções, que conhecemos outros países, enfim, que anunciamos qualquer coisa que queiramos vender, seja ela material ou não. E por ser a mais eficiente “vendedora” produz nas pessoas uma mesma mentalidade, um mesmo raciocínio, formando a cultura de massa, oposta, digamos assim, ao senso crítico.
Falta, no homem, conhecimento, que se adquire lendo, estudando, pesquisando, desenvolvendo senso crítico, e não assistindo à mesma coisa sempre e acreditando em tudo que passa na TV. Dessa forma não aprendemos nada. E por falar em “assistindo à mesma coisa”, não se pode esquecer a hegemonia da Globo. Há, inclusive, um documentário que fala sobre sua trajetória desde que surgiu. Uma emissora que agrada a gregos e troianos, sobrevivendo até à ditadura militar. Muito brilhantismo aliado a colossal hipocrisia.
Ao definir o conceito de cultura de massa e adentrar no seu campo, surge o dilema entre o individualismo e a massificação. É possível sim, sermos iguais e diferentes ao mesmo tempo, já que cada um tem suas próprias experiências, tem seu próprio imaginário, associando cada fato que vê a algo diferente, mas sem deixar de associar. E, mesmo que o cidadão perceba que está sendo vítima dessa massificação, (ninguém está livre) continuará alienado. Entretanto, o fato de haver um pequeno alerta dentro dele, já o torna menos estúpido, mais pensante. Como disse René Descartes: “Penso, logo existo”.
