Os poemas abaixo foram escritos numa linguagem simples, talvez num romantismo contido, porém não na mesma linguagem de Bilac e de Francisca Júlia que também sabiam escrever brilhantemente. Apesar da simplicidade, são obras literárias e não panfletos provando que é possível escrever de modo mais simples sem ser simplório, afinal, a linguagem denotativa tem que ficar lá nas bulas de remédio, receitas de culinária, críticas, textos históricos e informativos etc. Mesmo porque, uma literatura sem recursos é uma literatura analfabeta.

Agora vem a revelação surpreendente: o poeta abaixo é mulato e como o apedrejado e genial Cruz e Souza, não ficou inserindo reflexões panfleteiras em seu texto apenas por uma questão racial. Ao contrário do que pensa, Cruz e Souza escreveu sim algo social na literatura ( Litania dos pobres), como observa nossa leitora Pauline Kisner, historiadora e fundadora da Sociedade Histórica Desterrense. Além do mais, ele guardou  crítica para artigos de jornal que,  por não serem obras literárias, são menos conhecidos que seus majestosos sonetos.

Voltando ao poeta mulato gago e epilético da favela que hoje poderia ser taxado nerd, ficam aqui seus majestosos poemas e quem desejar ler suas críticas sociais inseridas em sua literatura, basta ler Dom Casmurro, Memórias Póstumas de Brás Cubas, Quincas Borba, seus contos e tantos outros romances e verá que é possível sim apresentar críticas políticas sem ferir o esplendor estético, mas há autores que preferem tratar outros temas que possuem a mesma importância que os sociais.

A uma senhora que me pediu versos

Pensa em ti mesma, acharás
Melhor poesia,
Viveza, graça, alegria,
Doçura e paz.

Se já dei flores um dia,
Quando rapaz,
As que ora dou têm assaz
Melancolia.

Uma só das horas tuas
Valem um mês
Das almas já ressequidas.

Os sóis e as luas
Creio bem que Deus os fez
Para outras vidas.

A vassalagem amorosa é um tema sempre atual, a combinação de redondilha maior com tetrassílabos poderia ser usada mais vezes.

Livros e flores

Teus olhos são meus livros.
Que livro há aí melhor,
Em que melhor se leia
A página do amor?

Flores me são teus lábios.
Onde há mais bela flor,
Em que melhor se beba
O bálsamo do amor?

Isto que é poesia concisa e não os "haikais" que circulam por aí sem ser.  São apenas duas estrofes, mas genialmente compostas. Reparem na leveza das seis sílabas.

Carolina

Querida, ao pé do leito derradeiro
Em que descansas dessa longa vida,
Aqui venho e virei, pobre querida,
Trazer-te o coração do companheiro.

Pulsa-lhe aquele afeto verdadeiro
Que, a despeito de toda a humana lida,
Fez a nossa existência apetecida
E num recanto pôs o mundo inteiro.

Trago-te flores - restos arrancados
Da terra que nos viu passar unidos
E ora mortos nos deixa e separados.

Que eu, se tenho nos olhos malferidos
Pensamentos de vida formulados,
São pensamentos idos e vividos.

É certo de que existem escritores que, numa preocupação tumultuada com a isometria, produzem péssimos decassílabos, mas Machado produziu algo belo e diferente, notem a criativa  associação das flores com a terra que viu o casal viver junto e agora, separa os dois pela morte. 

Meu poema favorito dele se encontra abaixo. O final apresenta raciocínio e o bom uso do elemento céu.

Quando ela fala

She speaks!

O speak again, bright angel!

Shakespeare

Quando ela fala, parece

Que a voz da brisa se cala;

Talvez um anjo emudece

Quando ela fala.

Meu coração dolorido

As suas mágoas exala.

E volta ao gozo perdido

Quando ela fala.

Pudesse eu eternamente

Ao lado dela, escutá-la,

Ouvir sua alma inocente

Quando ela fala.

Minh'alma, já semimorta,

Conseguira ao céu alçá-la,

Porque o céu abre uma porta

Quando ela fala.

MACHADO DE ASSIS