Meu nome é Julieta
felinos, nomes, cultura popular, música, crônica
Por pouco não se chamou Elizabeth, estando ela fadada a ser chamada de Bete pelo resto de sua vida felina Matheus Lopes Quirino Gatos têm nomes de velho. A moda agora é essa: adote um gato (ou compre) e o batize como Bartolomeu, Otto, Orígenes, Luzardo, Severino, Aloísio, Petrarcus, Tarcísio, Adolpho, Romeu, e por aí vai. Para as gatas, nessa nominação cartorial felina, vale Etelvina, Nora, Giselda, Lônia, Severa, Godofreda, Pérola, Teobalda, Amaralina e, claro, Julieta. Julieta veio da rua e pulou no colo certo. Irresistível gata, manhosa, de olhões verdes e cara de mal, ela foi trazida há pouco. Seu miadinho conquistou a família. Olhei para ela, cravei: vai se chamar Julieta. Por pouco não se chamou Elizabeth, estando ela fadada a ser chamada de Bete pelo resto de sua vida felina. Hoje, Julieta é chamada de lindinha, de Juju, Coisa Linda, bonitinha, bebê e, claro, simplesmente gata. O curioso é que ela atende por Bibi, apelido dado num esforço de deixar menos meloso “bebê”. Bibi, apontou o Nathan, é nome forte, lembrou ela, da insubordinada Bibi Ferreira, a dama do teatro brasileiro. A gata Julieta, devidamente elegante com o lenço da Paty (arquivo pessoal/Matheus Lopes Quirino) Se Bibi já tem uma história, já com menos de um ano, quem ouve Julieta já pergunta se é “a do Romeu”. Em primeiro lugar, Julieta (ou Giulietta, como escreve o André) não é de gato nenhum, quanto menos de um Romeu, que é da safra dos sem vergonhas, como os gatos com R, (de Don) Ruan, Rivelino, Raduan, Rimbaldi (sim, escrito assim), que fica Rambô, essa confusão nominal que o gato não sabe se está mais para poeta ou guerrilheiro hollywoodiano. Julieta nada tem a ver com Romeu, nem o de Shakespeare. Seu nome veio da moça da letra de “Bolinha de Papel”, composição de Geraldo Pereira que ficou famosa na voz de João Gilberto, no álbum homônimo de 1961. É de lá que são os versos “Tiro você do emprego/Dou-lhe amor e sossego/Vou ao banco e tiro tudo pra você gastar/Posso, Julieta, lhe mostrar a caderneta/Se você duvidar”, tcham, tcham, tcham! Julieta, ou Bibi, está mais para Bossa do que para o teatro do bardo. Publicado por Matheus Lopes Quirino Jornalista, foi repórter e editor-assistente do caderno Aliás do jornal O Estado de S. Paulo. Escreve sobre livros, artes visuais e cultura. Ver todos os posts de Matheus Lopes Quirino
Texto originalmente publicado em Revista Fina