por Rafael

Às 2:42 da manhã H. dormia e sonhava com coisas que ainda levará anos para decifrar. A recorrente tortura de se deparar com um medo qualquer e tentar fugir em uma disparada que nunca acontece. Escorrega, derrapa, até que acorda ofegante e se acalma para voltar a dormir. Mas desta vez a tentativa-de-correr foi interrompida pelo vibrar de uma mensagem de texto em seu telefone celular. Era Mariana.

“Ta aí?”,  como houvesse a possibilidade de uma resposta negativa.

“Oi. Agora sim. O que acontece?”

“Sonhei com tudo aquilo de volta”, Mariana também tinha suas recorrências em forma de sonhos.

“E como vc ta se sentindo?”, H. sempre colocou os sentimentos de Mariana à frente dos próprios.

“Não sei. Eh tudo tão estranho. Não sei separar o que eh realidade do que são símbolos. Representações”.

“Nossa vida é um eterno atribuir de significados, não?”, H. é objetivo ao acordar e poético ao adormecer.

“Pode ser. Talvez seja por isso que eu goste tanto de ouvir meu coração. Acho que todo mundo deveria ter um estetoscópio”, traduzia Mariana, sempre tendendo à poesia.

O que distanciava H. de Mariana durante o dia era a ânsia de ouvir os barulhos do universo, quando esquecemos de ouvir os nossos próprios sons. Do que somos. Dos nossos mundos. Era quase-sempre-um-em-cada-extremo.

“Tudo é sempre um tanto do que interpretamos. Nada é simplesmente o que é.”

“Por isso, vc é o mundo. ”, mandou novamente H., antes que Mariana respondesse.

Ela sorriu.

“Eu sou a falta de palavras, agora. E um sorriso quilométrico.”

Ele sorriu.

“Acho que ele acaba de passar por aqui.”

Sorriram juntos.

“De tanto estar, acabamos sendo”, já não importa quem escreveu.