O constante barulho das ondas surge como lembrança de que há um retorno perpétuo, principalmente da memória. Estamos longe do farol de Virginia Woolf, mas ainda ouvimos ecos dos complexos laços familiares e das perdas que se arrastam no tempo. Há no mar, contudo, uma possibilidade de purificação. Giovana Proença O som grave do farol é a primeira imersão em A filha perdida, filme baseado no romance homônimo de Elena Ferrante, celebrada autora italiana, uma ilustre anônima por trás do pseudônimo que esconde o mistério: a identidade do gênio por trás de obras como A Tetralogia Napolitana. Na sequência, uma mulher de meia-idade, vestida de branco, desmaia nas pedregosas areias do mar grego. A atriz Olivia Colman, a Rainha da Inglaterra de The Crown, interpreta Leda, professora universitária em férias no pitoresco cenário grego. Há muitos nuances no longa, que impressiona pelo comando da atriz Maggie Gyllenhaal, estreante na direção. Contudo, esse não é um filme que parece ter saído das lentes de uma principiante. Chama a atenção a trilha sonora, em especial a faixa “Leda”, tema da personagem que integra a playlist disponível no Spotify. A composição de Dickon Hinchliffe acompanha bem o mergulho na interioridade conflituosa da turbulenta protagonista de Ferrante. Leda tem algo de Elena Greco, a narradora da Tetralogia Napolitana. Acadêmica de sucesso, em meio a ascensão na literatura comparada, enfrentou os dramas da maternidade e da vida tradicional imposta às mulheres. Encontra o escape pela fuga. A canção instrumental que carrega o seu nome revela os tons de mistério, suspense e erotismo que permeiam a personagem. Olivia Colman entrega bem a aparente sobriedade forçada da elegante Leda, cujo ponto de equilíbrio e as lembranças esquecidas são perturbadas pelas imagens de Nina e sua filha. Ferrante tem uma aparente obsessão por bonecas. São duas delas que selam a amizade de Lenu e Lila em sua obra mais conhecida. Em A filha perdida, Leda furta a boneca da filha de Nina, o que perturba a criança e a leva a dias e noites de inquietação. Sem remorsos, a mulher tem um prazer sádico com o rompimento da ordem entre mãe e filha. É também masoquista das memórias despertas, relacionadas à falta de compasso com as próprias filhas na infância. Em seu ensaio “O infamiliar” – ou “O iquietante” – Freud afirma que o medo de bonecas vem do fato de elas parecerem humanos, seres animados, embora sejam objetos inanimados. Daí resulta a ternura que Leda parece transferir para a boneca, tantos anos depois, quando já se viu livre da prisão que eram as necessidades das filhas. Ela aproveita ainda a posição de guru de Nina, interpretada por Dakota Johnson. Longe do jogo entre inocência e sensualidade de Cinquentas tons de cinza, protagonizado pela atriz, ela recria essa tensão em novos termos para o filme de Gyllenhaal. No início, ela é apenas mãe. Ao longo da trama, podemos vê-la como mulher. Em meio a um ambiente paradisíaco, do qual a fotografia do filme soube se aproveitar, conhecemos uma história de confrontos e inquietações. O constante barulho das ondas surge como lembrança de que há um retorno perpétuo, principalmente da memória. Estamos longe do farol de Virginia Woolf, mas ainda ouvimos ecos dos complexos laços familiares e das perdas que se arrastam no tempo. Há no mar, contudo, uma possibilidade de purificação. Publicado por Giovana Proença Taubateana de 2000. É pesquisadora na área de Teoria Literária na USP. Tem textos sobre livros e literatura publicados em jornais como Rascunho, Estado de Minas e O Estado de S. Paulo Ver todos os posts de Giovana Proença