[Especial Lygia F.T.] A caçada entre música e prosa
Literatura Brasileira, Música Brasileira, Intertextualidade, Análise Literária, Carne Doce
“A Caçada”, que integra sua maior obra, Antes do Baile Verde, realça as ameaças da observação atenta e da proximidade Giovana Proença A banda goiana Carne Doce lançou em 2020 o single “A Caçada”. Explorando o ritmo que a consagrou em faixas anteriores, o grupo arremata um trabalho que destaca o lado mais abstrato de discos passados com uma particularidade: a inspiração no conto homônimo da maior escritora brasileira viva, Lygia Fagundes Telles, para dar corpo às letras da canção. Mestra do olhar, Lygia desvenda cenas cotidianas a partir da exploração do sentimentalismo, as emoções estão intimamente ligadas ao objeto de observação. “A Caçada”, que integra sua maior obra, Antes do Baile Verde, realça as ameaças da observação atenta e da proximidade. Em uma loja de antiguidades – com cheiro de uma arca de sacristia- um homem examina a expressividade de uma tapeçaria, tomada pelas traças. A análise minuciosa, trunfo da pena ágil de Lygia, transporta o homem para os verdes da cena. Em um piscar, ele se torna todos os personagens da caçada e seu confeccionador. E tudo a partir de um olhar: esse é o perigo — irresistível — da dama da nossa literatura . Pelos ouvidos, a canção da Carne Doce ata o mesmo nó que a escrita de Fagundes Telles. O tom do canto de Salma Jô anuncia o ser capturado por todas as posições: a ameaça da proximidade do adentrar é clara. Estive de fora Estive na mira Depois me perdi Agora estou presa à caça Por um lado, a potência do tempo, que costura e rasga, e a deterioração do passado, marcados pelo bolor e pelas traças na loja de antiguidades do conto de Antes do Baile Verde ficam evidentes no trabalho de prosa sonora feito pela banda goiana. Por outro, temas como alusões ao desmantelamento do sentimentalismo e a limitação aos restos, nos lembram outras faixas como “Comida Amarga” do álbum Tônus, de 2018. Agora essa caçada É só um tapete em pedaços E eu sou só um trapo de alguém Só uma paródia de mim Na literatura de Lygia Fagundes Telles, os objetos instauram o clima, fazendo com que a visão seja o suficiente para retirar o equilíbrio certeiro de suas personagens à deriva. Já na “Caçada” musical são as primeiras batidas que nos contagiam. A escritora sussurra e Salma Jô, vocalista da Carne Doce, solta a potência da voz. A composição da música capta com perícia as nuances das entrelinhas do conto, as armadilhas do tempo e da contemplação. Aí está o perigo do olhar de uma mulher, Lygia e o golpe da melodia da banda indie goiana. Se a escritora, face à harmonia dos saxofones que perpassam sua obra, se renderia ao som alternativo da Carne Doce, é uma grande dúvida. Mas é certo que as sutilidades de um arranjo literário da década de 1960 foram transpostas com minúcia e maestria para os moldes modernos da música alternativa contemporânea. “A caçada” é um ganho tanto para cena musical brasileira alternativa, que bebe da fonte de um de nosso maiores ícones literários, como para Lygia Fagundes Telles que provavelmente terá uma nova legião de admiradores influenciados pela incursão da caça em campos goianos. (Texto originalmente publicado em maio de 2020. Imagem: capa do single “A Caçada”, foto de Rogério Watanabe) Publicado por Giovana Proença Taubateana de 2000. É pesquisadora na área de Teoria Literária na USP. Tem textos sobre livros e literatura publicados em jornais como Rascunho, Estado de Minas e O Estado de S. Paulo Ver todos os posts de Giovana Proença
Texto originalmente publicado em Revista Fina
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