(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 17 de outubro de 2000)

 

Bastará dizer que sou Juan Pablo Castel, o pintor que matou Maria Iribarne”. Uma das mais primorosas frases de abertura da literatura. Ficamos sabendo quem é o narrador, o que ele faz e o acontecimento principal da história que será contada.

Trata-se do início de O TÚNEL (El túnel, 1948, traduzido por Sérgio Molina).A Companhia das Letras aproveitou o lançamento de um texto inédito no Brasil de Ernesto Sabato, Antes do fim, para publicar também uma nova tradução do seu primeiro texto de ficção. Já houve duas anteriores: em 1961, a de Noelini Souza para a Civilização Brasileira (depois reeditada pelo Círculo do Livro), que tem diversos trechos suprimidos nas posteriores, e a de 1980, de Janer Cristaldo, para a Francisco Alves, ambos—tradutor e editora—responsáveis pela publicação de vários textos do argentino no Brasil.

O Túnel é uma história de ciúme e crime passional. A obsessão de Juan Pablo Castel por Maria Iribarne, a “única pessoa que o compreendia no mundo” desmascara o machismo desenfreado: para ele, Maria não pode ter vida própria, é um insulto e uma traição, não pode viver sem girar à sua orbita, “compreendendo-o infinitamente”. Narrando a história dos dois, o tom é de mártir: eu achava que tinha encontrado a única pessoa no universo que me compreendeu, mas ela me traiu etc etc. Como sempre nesses casos, a vítima se torna culpada.


O relacionamento é apresentado como um inquérito policial: há infinitos interrogatórios e sessões de tortura psicológica, Castel interroga, mas nunca acredita no que ouve.

Sintomaticamente, a lembrança que ele tem da mãe é a seguinte: “Minha mãe não perguntava se tínhamos comido alguma maçã, pois negaríamos. Perguntava quantas, dando astuciosamente como sabido o que ela queria saber: se tínhamos comido ou não a fruta. E nós, levados sutilmente por aquela ênfase na quantidade, respondíamos que tínhamos comido apenas uma maçã”. Também de forma sintomática, no momento em que Maria está “abrindo o coração”, por assim dizer, a Juan Pablo (eles estão numa paisagem que lembra a pintura dele que os aproximou), ele, que tanto a interrogara, está tão absorto nas suas próprias ruminações que não a ouve: “Tive a impressão que ela acabara de fazer uma confissão preciosa que eu, como um imbecil, perdera” (note-se o termo utilizado, confissão, como se ela fosse uma mentirosa contumaz da qual se precisasse arrancar a verdade).

Com todo esse peso patológico, e mesmo levando-se em conta como Juan Pablo Castel é um personagem desagradável, paranóico e misógino (pois sentimos um verdadeiro ódio às mulheres em várias passagens), O Túnel é uma obra-prima, rastreando de forma angustiante os mecanismos psicológicos que regem esse sentimento inquisitorial que é o ciúme (como Shakespeare, Machado de Assis, Proust, Graciliano Ramos e Graham Greene nos ensinaram) e todas as suas conseqüências: o desejo de posse, a necessidade de anular o outro.

Não deixa de ser curioso, portanto, que o resultado final tenha desagradado o autor.Terá sido revelador demais? Segundo ele, houve um certo empobrecimento da sua intenção inicial, que era mostrar um desespero metafísico, uma solidão absoluta.

Por isso, no seu livro seguinte, Sobre heróis e tumbas (1961), ele fez uma releitura dos fatos narrados em O Túnel, através de outro personagem desagradável, paranóico e misógino, num grau bem mais radical, Fernando Vidal Olmos. Este acredita que há uma conspiração de Cegos dominando o planeta e que Castel (o qual manifestara sua aversão a eles; e não esqueçamos a cegueira de Allende, marido de Maria Iribarne) fora uma vítima da vingança da Seita.

Sobre heróis e tumbas é um romance tão fascinante e poderoso que se corre o risco da versão de Vidal Olmos dos fatos prevalecer. Para se precaver dessa tentação, o leitor deve atentar para o seguinte: não é interessante que além de compartilhar com Castel várias características (o ódio à humanidade, a hostilidade para com as mulheres) haja também em Vidal Olmos uma obsessão com cegos quando lembramos que o maior escritor da Argentina, Jorge Luis Borges (que aparece como personagem e sobre o qual há várias páginas de discussão em Sobre heróis e tumbas), era cego, e quando sabemos que Ernesto Sabato teve com ele uma relação de amor-ódio, de admiração-rejeição (parece que também há uma mulher envolvida no imbróglio)?

Portanto, ao tentar tornar o narrador do seu primeiro livro menos mesquinho, engrandecendo-o com uma trama mais metafísica e épica (só que, como em Angústia, de Graciliano, é muito mais marcante o psicológico do que o metafísico em Ernesto Sabato), o grande escritor argentino só conseguiu insinuar novos mecanismos de rancor e vingança pessoal, mais dos seus outros “cantos escuros”, como James Ellroy. É o caso de dizer que a emenda saiu pior que o soneto. Felizmente, todos esses lados mesquinhos e escuros geraram ficções memoráveis. E O Túnel é, sem dúvida, o seu texto mais perfeito.

ANEXO: AS TRÊS TRADUÇÕES DO LIVRO

I

A tradução de Noelini Souza foi publicada pela primeira vez em 1961 pela Civilização Brasileira; em 1976, foi relançada pela Alfa-Ômega (com paginação semelhante), e alguns anos depois (é sempre difícil determinar) pelo Círculo do Livro.

Um trecho dessa tradução:

“Tão logo saí do correio ocorreram-me duas coisas: não havia dito na carta por que deduzira ser ela amante de Hunter  e não sabia o que me levava a feri-la tão impiedosamente: talvez fazê-la mudar sua maneira de ser, no caso de serem certas as minhas conjecturas?[1] Isso era evidentemente ridículo. Fazê-la correr para mim? Não era crível que o conseguisse com tais procedimentos. Refleti, todavia, que, no fundo da minha alma, só ansiava pela volta de Maria.[2] Mas,neste caso, por que não dizê-lo diretamente, sem magoá-la, explicando-lhe haver fugido do sítio por ter subitamente percebido os ciúmes de Hunter? Afinal de contas, minha conclusão de ser ela amante de Hunter, além de ultrajante, era completamente gratuita; em todo o caso era uma hipótese, que eu me podia formular com o único propósito de orientar minhas investigações futuras.

   Uma vez, pois, cometera uma asneira, com o meu costume de escrever cartas muito espontâneas e enviá-las em seguida. As cartas importantes têm de ser retidas pelo menos um dia, até que se vejam claramente todas as possíveis consequências.

   Restava um recurso desesperado: o recibo! Procurei-o em todos os bolsos, mas não o encontrei: deveria tê-lo jogado estupidamente por aí. Voltei correndo ao correio e entrei na fila das cartas registradas. Quando chegou a minha vez, perguntei à empregada, enquanto fazia um horrível e fingido esforço para sorrir:

__ Não me reconhece?

   A mulher fitou-me com assombro: decerto pensou que eu era louco. Para livrá-la do seu terror, disse-lhe ser a pessoa que acaba de enviar uma carta para o Sitio dos Umbuzeiros. O assombro daquela estúpida pareceu aumentar e, talvez com o desejo de comparti-lo ou de pedir conselho diante de algo impossível de compreender, volveu o rosto para um colega; depois, fitou-me de novo:

__ Perdi o recibo—expliquei.

  Não obtive resposta.

__ Quero dizer que necessito da carta e não tenho o recibo (…)

__ O senhor quer que lhe devolvam a carta?

__ Sim, é isso mesmo.

__ E nem sequer tem o recibo?

   Tive de admitir que, com efeito, não tinha esse importante documento. O assombro da mulher chegou ao auge. Balbuciou algo que não entendi e voltou a consultar com os olhos o colega.

__ É completamente impossível […] Que documentos possui para provar-me ser o remetente da carta?

__ Tenho o rascunho—disse, mostrando-o.

   Apanhou-o, olhou-o e me devolveu.

__ E como havemos de saber que o rascunho é o mesmo da carta?

__ É muito simples, abramos o envelope e verifiquemos.

   […]

__ Esse documento não serve—concluiu a harpia.

__ Acha a carteira de identidade suficiente?—perguntei com irônica cortesia.

{…]

__ Não. A carteira apenas não, porque aqui só estão as iniciais. Terá de mostrar-me também um atestado de domicílio.

  […]

   Uma fúria escondida explodiu afinal em mim e senti que alcançava também a Maria e, o que é mais curioso, a Mimi.

__ Mande-a de uma vez e vá para o inferno!—gritei, retirando-me.”

2

Em ‘1981, pela Francisco Alves, saiu a versão de Janer Cristaldo (o qual traduziu vários livros de Sabato). Nela, o trecho acima foi traduzido da seguinte forma:

“Mal saí do correio, me dei conta de duas coisas: não havia dito na carta por que havia inferido que ela era amante de Hunter; e não sabia a que me propunha ao feri-la tão desapiedadamente[3]: queria talvez mudar sua maneira de ser, no caso de serem corretas minhas conjecturas? Isso era evidentemente ridículo. Fazê-la correr para mim? Não era crível que o conseguisse com aqueles procedimentos. Refleti, no entanto, que no fundo de minha alma só ansiava que Maria voltasse para mim. Mas, neste caso, por que não o dizer diretamente, sem feri-la, explicando-lhe que havia ido embora da estância por ter notado de repente os ciúmes de Hunter? Afinal de contas, minha conclusão de que ela era amante de Hunter,além de ferir, era completamente gratuita: em todo caso, era uma hipótese que eu podia me formular com o único propósito de orientar minhas investigações futuras.

   Uma vez mais, pois, havia cometido uma bobagem, com meu hábito de escrever cartas muito espontâneas e enviá-las em seguida. As cartas importantes, devemos retê-las ao menos por um dia, até que vejamos claramente todas as possíveis consequências.

   Restava um recurso desesperado, o recibo! Procurei-o em todos os bolsos, mas não o encontrei: o havia jogado fora, estupidamente. Voltei correndo ao correio, mesmo assim, e me pus na fila dos registrados. Quando chegou minha vez, perguntei à funcionária, enquanto fazia um horrível e hipócrita esforço para sorrir:

__ Não me reconhece?

   A mulher me olhou com espanto: certamente pensou que eu era um louco. Para afastá-la de seu erro, lhe disse que era a pessoa que acabava de enviar uma carta à estância Los Ombúes. O espanto daquela estúpida pareceu aumentar e, talvez com o desejo de partilhar ou de pedir conselho ante algo que não chegava a compreender, voltou seu rosto para um companheiro…” etc etc

3

E, em 2000, apareceu pela Companhia das Letras, a tradução de Sérgio Molina (agora reeditada na Coleção Folha Literatura Ibero-Americana), em que o trecho é traduzido assim como se segue:

“Tão logo saí do correio, percebi duas coisas: não dissera, na carta, por que inferira que ela era amante de Hunter; e não sabia o que pretendia ferindo-a tão impiedosamente: por acaso fazê-la mudar sua maneira de ser; caso minhas conjeturas estivessem corretas? Isso era evidentemente ridículo. Fazê-la correr para mim? Não era crível que conseguisse isso com tais procedimentos. Refleti, contudo, que no fundo de minha alma eu só desejava que María voltasse para mim. Mas, nesse caso, por que não dizê-lo diretamente, sem feri-la, explicando-lhe que tinha ido embora da fazenda porque de repente notara os ciúmes de Hunter? Afinal de contas, minha conclusão de que ela era amante de Hunter, além de ferina, era completamente gratuita; quando muito, era uma hipótese, que eu podia formular lá comigo com o único propósito de orientar minhas investigações futuras.

   Mais uma vez, portanto, eu tinha cometido uma besteira com meu hábito de escrever cartas muito espontâneas e enviá-las em seguida. As cartas importantes devem ser retidas pelo menos um dia até que se vejam claramente todas as possíveis consequências.

   Restava um recurso desesperado: o recibo! Procurei-o em todos os bolsos, mas não o encontrei: devia tê-lo jogado tolamente por aí. Mesmo assim, voltei correndo para o correio e entrei na fila das cartas registradas. Quando chegou minha vez, perguntei para a funcionária, fazendo um horrível e hipócrita esforço para sorrir:

__ Não me reconhece?

   A mulher olhou-me com espanto: decerto pensou que eu era louco. Para tirá-la do engano, disse-lhe que era a pessoa que acabara de postar uma carta para a fazenda Los Ombúes. O espanto daquela imbecil pareceu aumentar e, talvez no desejo de compartilhá-lo ou de aconselhar-se diante de algo que não conseguia entender, voltou-se para um colega” etc etc.


[1] Na edição do Círculo, o ponto de interrogação foi omitido.

[2] Na edição do Círculo, o nome vem acentuado: María.

[3] Na verdade, está grafado “despiadadamente”..