Por José Reinaldo do Nascimento Filho
Terminei.
Leitores, sabem aquela sensação – típica dos nossos dias atuais – de que nada, absolutamente nada parece mais surpreendente? Pois bem, vamos falar sobre isso hoje a partir da leitura de Neuromancer, de William Gibson.
Quando criança, beirando ali a adolescência (década de 90), lembro-me dos programas de televisão Jaspion, Power Ranges, Changeman etc., mas em especial de dois filmes: O vingador do futuro e Robocop. Aproveitando aquele momento do meu crescimento (imaginação + inocência a mil), esses filmes transmitiam para mim algo especial. Eles meio que profetizavam como seria o nosso futuro não muito distante: efeitos da poluição e radiação solar (vide aquele cena de uma mulher passando um protetor solar fator 1000), tecnologia superhipermega avançada, carros voadores, viagens a novos planetas (uma terra destruída e os seres humanos conhecendo mulheres de três peitos em marte (não lembro se ela era de alguma raça alienígena ou apenas mutação num gene humano devido a alguma mudança climática ou comida industrializada em demasia – hoje, por exemplo, vemos gurias de 10 anos com seios de garotas de 16), implantes cibernéticos, viagens no tempo. Tudo aquilo parecia muito, mais muito palpável. Tudo era muito novo. Tudo era empolgante. Surpreendíamos com aquilo tudo, aquelas visões, expectativas nada promissoras. Deslumbrávamo-nos com os primeiros celulares. Com os gráficos de Donkey Kong no SNES e com as primeiras imagens (propaganda enganosa) do PS2 (antes do seu lançamento, obviamente). Hoje, imagino que devido à facilidade de acesso às informações, as coisas vão acontecendo e não vivemos mais criando expectativas a respeito de nada. Retomando o exemplo do PS2, você apresenta uma tela dessa nova geração de consoles e me vem a seguinte frase (daria um ótimo meme): “Tá bom. Legal”.
No final de semana passado, passei por essa sensação de “déjà vu sem sal”, ao assistir o remake do novo Robocop, de José Padilha. Que filme… datado. Que filme… falho no que quer se propor a discutir (vários e vários mini-temas que em nada são aprofundados. Muito melhor seria se o diretor e a produtora dissessem: é um filme de ação para adolescentes. Ponto. Vamos pegar um ícone da década de 80/90 e só, mas, essencialmente, que filme (ou seria, personagem?) datado. Sem propósito. Sem necessidade. Vazio. Busquem em sua memória as cenas do primeiro filme; mais do que isso, procurem não só retomar mas vislumbrar os anseios daquela geração, as preocupações daquele tempo, a conjuntura, e vocês perceberão como o original abordava perfeitamente o momento histórico no qual foi construído. O bendito desse remake, apesar de inserir os “Drones” (nooooossa…. puf!!) e algum outro ponto político atual, não consegue transmitir preocupações, angústias, dúvidas, perspectivas dessa nossa época. E me vem outra pergunta: depois da grande invenção do século 21, a internet + smartphone (rsrs), o ser humano estagnou? Tomem como base a ciência farmacêutica e me digam um grande avanço que faça a nossa cabeça explodir. Peguem o mercado de filmes, só vemos remakes. Peguem os novos celulares e vejam que a cada 6 meses um novo é lançado sem trazer absolutamente nada, nada de novo.
Nossas preocupações agora são outras (ou antigas que voltaram à tona. Mas isso é assunto para outro texto).
Bem, isso tudo para dizer: Neuromancer é um romance datado.
A primeira parte da trilogia Sprawl, conta a história de Case, um hacker endividado e viciado em todo tipo de drogas (e que está cagando para a tudo e todos), que recebe, de uma sedutora mulher (Molly) a seguinte proposta: nós iremos retirar a toxina do seu corpo (toxina esta que o impede de “plugar” na Matrix [misto de internet + imagens psicodélicas + abertura inicial de Ghost in the Shell], fruto do seu último serviço: envenenado por ter roubado o próprio chefe), se você fizer um último trabalhinho para um ex-oficial das Forças Especiais (Armitage). A missão é simples: hackear o mais protegido dos mainframes (este, por sua vez, protegido por uma super IA).
Ambientado num universo Cyberpunk (então espere naves voadoras, prédios altíssimos, riqueza na parte de cima das megalópoles e miséria no seu oposto, implantes de tudo quanto é jeito, desde braços, coração, rins, tudo, megacorporações que dominam o mundo, um sistema de governo bem distante dos que conhecemos hoje, esgotos a céu aberto, espetinho de rato, cabelos espetados – influência direta dos anos 80, obviamente), a história vai girar em torno de pequenas missões, ao redor do globo, na tentativa de invadir e coletar dados desejados pelo obscuro Armitage.
A narrativa no estilo thriller… Aí está um ou o ponto crucial. Esse romance foi mal traduzido? A escrita do autor é deveras complexa? A escrita é só “estilo” e continua sendo muito confusa? Eu devo aqui esconder o que senti realmente e falar por alto o que achei sobre o livro, dar 4 estrelas, ser bem vago e não falar a verdade? Meu veredicto:
O começo é muito bom. Um livro decente, com temática complexa e peculiar (que instantaneamente nos remete aos filme Matrix e Ghost in the Shell), mas que com o passar das páginas a leitura começa a ficar muito custosa, cansativa, e, em vários pontos, confusa e maçante. É preciso muito boa vontade para continuar. Eu terminei porque não gosto de abandonar livros. Mas me peguei, acho que lá pela página 100, questionando-me o porquê de eu estar lendo aquilo. “Sim, isso eu já vi”. “Sim, e?”. “Sim, se fosse para fazer um trabalho acadêmico esse livro seria mais útil”. “Sim, eu teria gostado mais se estivesse na década de 90”.
Concordo perfeitamente que o tema e a história cobre uma linguagem própria (vide Laranja Mecânica). Mas imagine isto multiplicado por mil, ao ponto de nos pegarmos fazendo a pergunta: onde nós estamos mesmo? O que significa essa metáfora tão confusa? Aceito o argumento de que não é um romance para ler às pressas, porém isso não justifica a dificuldade em visualizar as imagens narradas ou as ideias abordadas. Exemplificando: A Origem, filme do Nolan. A ideia é espetacular. A mecânica dos sonhos. Tudo intrincado, complexo. Contudo, você leitor, imagino, conseguiu compreender o que estava vendo. A mídia escolhida + roteiro + direção se encaixaram. O diretor precisou mastigar e brincar com a inteligência do telespectador? Não. O filme falou por ele mesmo. Nós não tivemos de buscar outras fontes para entender aquele filme e suas propostas. Já no decorrer do livro (e somos levados ao glossário no final do livro para entender a história), percebemos como a narrativa é irregular, transmitindo a impressão de que aquelas ideias originais, a viagem na Matrix, principalmente, ficaram tão complexas que precisaríamos de outra mídia para entender. Mais do que isso, se eu não conhecesse o universo Cyberpunk através de outros livros, filmes, mídias, não teria conseguido vislumbrar esse romance. A frase “é preciso que eu desenhe?” resume isso tudo.
Sim, Gibson, eu realmente queria que você, em muitos trechos, tivesse desenhado, porque você não conseguiu utilizar das palavras certas para se fazer compreender.
Eu disse que o livro é datado? Sim, disse. Nada, absolutamente nada ali me surpreendeu. Nada me apeteceu. E eu gosto de ficção científica (ou melhor, gostava?). Será que o problema está em mim, na expectativa que criei? Será que li esse livro errado? Fale ou escreva sobre Neuromancer num fórum ou blog e na mesma hora você ouvirá um coro de: oooohhhhhhhhh!!!! Revolucionário. Um livro sempre ATUAL. 25 anos depois e ele ainda está aí, com força. Será mesmo? Assim como 1984, de George Orwell, esse livro criou na sua época um futuro perturbador, algo totalmente palpável, mas diferente do primeiro – cujos temas e frases e pensamentos podemos utilizar ainda hoje (vide um Governo que reinventa a história todos os dias. Que cria frases semelhantes à já clássica: “nunca antes da história desse país”. Onde este mesmo Governo reconstrói o passado, afirmando que X não era realmente um bandido mas sim um herói, logo: vamos mudar nomes de Escolas) -, Neuromancer parece abordar um realidade futura mais fantasiosa que caótica e esperada. A hipérbole virou uma mera metáfora alegórica espalhafatosa.
Por fim, retomando o pensamento inicial do texto, a respeito de quase tudo nessa vida, Neuromancer não conseguiu perpetuar a provocante sensação de iminência e inquietação que só um grande autor e sua grande obra podem proporcionar. Sim, há livros que transcendem. Há romances que se pegarmos hoje continuaremos com aquele nó na garganta. Neuromancer já provocou essa sensação. Hoje, não mais.