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| Fotografia da minha autoria |
«Alguma vez ouviste falar de tal coisa?»
Avisos de Conteúdo: Homofobia, Aborto, Misoginia, Preconceito, Sexo
O letreiro com luzes néon atrai para um ambiente que parece não caber numa sociedade pacata, entre famílias que temem ser deportadas e que, por isso, fazem o possível e o impossível para passarem despercebidas. No entanto, há um lugar no livro de Malinda Lo que se posiciona como um caminho de (auto)descoberta.
DOIS MUNDOS QUE SE CRUZAM
Ontem à Noite no Telegraph Club transporta-nos para Chinatown, nos Estados Unidos da América, em plenos anos 50, que «não é um lugar seguro para duas raparigas se apaixonarem». Entre questões políticas, que influenciaram a vida de tantas pessoas, mudanças de linguagem e questões de género, é uma narrativa que marca os principais acontecimentos da época, da comunidade sino-americana e da família de Lily.
«As palavras foram ditas com suavidade, mas para Lily soaram como fogos de artifício»
Neste romance queer, que nos mostra cultura e tradições, um amor sáfico e o impacto da repressão sexual, o ritmo é mais lento, há alturas em que, inclusive, o enredo aparenta não evoluir, mas é fascinante como foi crescendo, como conseguimos acompanhar o desabrochar da protagonista. De repente, é como se estivesse a transitar entre vidas paralelas e é notório o pânico, quando sente que esses mundos se podem cruzar.
«- Alguma vez te perguntaste como seria não ter nada que te prendesse ao chão?»
A própria estrutura do livro é muito interessante, até porque cada parte é antecedida por uma linha temporal e a história de alguém importante para Lily; e gostei que a autora incorporasse tantos temas fraturantes de uma forma natural, acompanhando a idade dos intervenientes e o contexto em que se movimentam. A vertente política e a vertente social caminham entrelaçadas e isso reflete-se na maneira como se aceitam ou não determinadas circunstâncias, como nos comportamos perante a diferenças e como o medo é tão paralisante.
«As paredes invisíveis dos seus dois mundos deslizariam de voltar para o seu lugar
e ambas voltariam a viver as suas vidas separadas sem comentários»
Senti-me muito triste e revoltada na última parte, mas creio que isso só foi possível pela credibilidade que Malinda Lo atribuiu a todo o enredo. Embora seja uma história ficcional, é inspirada nos desafios que tantas mulheres tiveram de ultrapassar, nomeadamente, «aprender a sobreviver como sino-americanas e lésbicas em espaços que normalmente não permitiam a coexistência de ambas as identidades». E permitam-me, ainda, destacar a nota da autora, que é quase uma obra extra, pela riqueza das informações que compilou e que nos ajudam a compreender melhor questões sobre língua, os anos 50, crenças, São Francisco e comunidade.
«Mais uma vez pusera-se em perigo de ser descoberta»
Há uma história de amor a florescer e que, apesar do perigo, procurará resistir à pressão, ao preconceito, à incerteza do futuro. Ontem à Noite no Telegraph Club é mesmo um pedaço de luz a romper com a escuridão.
🎧 Música para acompanhar: 1950, King Princess
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